domingo, 9 de junho de 2013

CONFISSÕES EM UM DOMINGO SINCOPADO

               


         O cinza de junho já nos encobre às cabeças protegidas pelos tetos dos apartamentos e das casas. Em nossas pequenas colmeias cercadas de cotidiano olhamos as ruas molhadas e os intermitentes pingos de chuva. Quase não ouço o cantarolar matinal dos pássaros. Tudo lá fora parece tão deserto quanto os cemitérios que trago dentro de mim. A cerração que desaba sobre nós pode reduzir a visibilidade dos horizontes, contudo aprofunda-me de interiores onde encontro revivido os meus mortos. Por instantes sou londrino e sou úmido, sou um inteiro silêncio cheio de sussurros. As vozes que me vêm de longe e de ontem ensurdecem-me dos pequenos ruídos domésticos. A neblina que de fora da janela não se forma aproxima-se de mim, e agora me vejo assim enevoado pelo contato das minhas superfícies com meu solo. Algo se forma em minhas particularidades contidas quando, privado do sol, torno-me uma bruma condensada pela evaporação das lembranças. Estou como sempre estive desde a minha infante juventude: só e cercado de livro por todos os lados. Será isto que sempre fui? Será que sou uma ilha sem pontes, ou será que sou um estrangeiro em minha própria casa? Talvez eu seja um exilado do futuro do meu passado, um expatriado do território de minha história. Seja lá o que eu realmente for, somente sei que não sou quem poderia ter sido. Entre a criança e o homem há um intenso corte, e esta cicatriz que de muito carrego me faz sempre lembrar que sou um Joaquim descontinuado.

                Herdo dos meus ancestrais este baú de memórias. Entre quinquilharias várias, resquício de uma civilização familiar fenecida lá está, como quem me espera, uma antiga fotografia de minha infância não menos antiga. Por detrás do preto e branco manchado de tempo a criança me olha através dos anos. O que pensa ela sobre o que sou? Será que em seus ingênuos olhos, cujo olhar que vem de tão longe pelas frestas das reminiscências, sonha ela futuros imaginários onde não habitarei? Contemplas o teu pior pesadelo corporificado no colorido cinzento do hoje que antes te era amanhã? O que tu vês menino com estes olhos que um dia já foram os meus?
                  No mirar de minha mocidade primeira escondem-se desejos que agora me chegam transformados em vagas lembranças. Ficaram tão aprisionados como este meu olhar desbotado, nos instantes distantes que a foto não flagra, as aventuras galácticas do astronauta que jamais me tornei. Os monstros alienígenas que tantas vezes derrotei estão enterrados junto aos brinquedos esquecidos em algum lugar do armário que já não existe mais. A eternidade da infância parece terminada ali naquele retrato de um minuto congelado. Durei apenas a perpetuidade finita de minhas fantasias pueris cuja pureza agora se perde no encontrar deste comigo adulto. Desculpe-me meu ontem pelo hoje que te oferto.
                               Afoguei meus sonhos com o acumular dos aniversários. Andei por becos e ruelas, dobrei esquinas e segui em frente por vias estreitas ladeadas de elevados muros e aqui cheguei depois da última curva. Meu itinerário foi feito pelo passear impreciso dos silentes pés. Afastei-me tanto do menino, agora eu sei, que chego até a duvidar se nasci menino. Talvez eu não tenha sido uma criança sonhando com o adulto, mas um homem que sonha com a criança. Minha vida tem sido uma noite inteira onde sonâmbulo transito entre uma quimera e outra. Isto o que sou: um intervalo onírico onde me construo como um castelo no ar.
                               Sim, tornei-me este homem interrompido, uma criança inacabada. Minha humanidade toda é feita do que não fiz e do que nunca farei. O passado permanece em mim colado como uma segunda pele que por debaixo do tecido carnal que me encobre e que se expõe nos espelhos encapsula a minha mais verdadeira substância. Em meio à derme e o esqueleto encontra-se um Joaquim pretérito vindo de uma era anciã que não caducou ou sepultou seus apetites. O anoréxico sonhador em que me converti é o oposto do bulímico em que outrora já fui. Fiz-me assim de sonhos vomitados.
                               Acaso fosse uma fruta estaria apodrecida no asfalto urbano e infértil de minha existência. As sementes que nela residem não tiveram a sorte de encontrar o pó da terra para germinar. E como um filho que não coube ser pai sou ao mesmo tempo órfão e estéril, pois infecundei minha vida com a fecundidade minhas perdas.
                                O rei tornou-se súdito, o guerreiro tornou-se covarde, e o médico virou paciente e o espadachim transformou-se em escudo. Nada do que quis ser se fez. Nada do que sonhei transbordou-se em realidade. Tudo que fui era apenas brincadeiras, folias de um menino que se levava a sério, enquanto o homem que aqui escreve e que se acredita sério somente é um pálido reflexo de um folguedo juvenil. Uma galhofa com número de identidade.
                               Nestes dias em que ainda respiro sou um rei sem reinado, sou um guerreiro entediado em tempo de paz, e o branco que me encobre é tecido pelas ausências das realizações. Como posso esgrimir se perdi a espada? Como posso voar em espaços siderais se a minha nave ficou ali no distante olhar da criança neste retrato que me olha sem me amar? Sou um cowboy sem cavalo, sou somente aquele que escreve poemas para purgar suas moras e suas culpas.

                Mas se eu continuasse a ser quem era e quem poderia ter sido não seria hoje quem sou.  Não sendo quem sou, não escreveria o que ora escrevo, nem pensaria ou sentiria o que penso e sinto. E assim não seria eu: seria outra pessoa. Não conheceria quem conheci, não amaria quem amei e amo, não derramaria as lágrimas que derramei, nem muito menos sorriria os sorrisos que sorri. Sequer teria hoje as nostalgias que tenho. Seria tudo então tão diverso e diferente que já não me reconheço antes de onde me interromperam. Minha continuidade, portanto, é esta própria descontinuidade que chamamos de biografia ou história. Definitivamente não sou um homem interrompido, mas um homem percorrido que olha os dias com olhos de menino triste.





Joaquim Cesário de Mello


sexta-feira, 7 de junho de 2013

VALE A PENA VER DE NOVO


MONTAIGNE, HOLBEIN E O TANGO ARGENTINO


Venho percebendo que tenho ultimamente utilizando os textos de Joaquim Cesário como mote para meus artigos. Que explicação eu poderia dar para isso?  Tenho algumas hipóteses – todas elas puramente especulativas. Amizade? Sem dúvida! Sintonia de inquietações? Provavelmente! Falta de imaginação? Quem sabe... Mas há em mim, desde os tempos remotos, a necessidade em entabular diálogos sejam eles quais forem.   Na adolescência apesar de tímido, elegia um restrito número de amigos de colégio, sentava na sombra debaixo de uma árvore, uma mangueira, e na hora do recreio e das aulas educação física – que eu dificilmente participava – punha-me a conversar sobre as coisas mais estrambóticas da vida: o cosmos, a vida, o capitalismo, o religião e de muitas outras inutilidades. Digo inutilidades porque eram, naquela ocasião, coisas que pouco interessava as pessoas de nossa idade. Éramos Nerds antes dessa denominação existir ou se popularizar.   O literalMENTE vem trazendo de volta estes diálogos, mesmo que a distância, daqueles e de muitos outros temas que com a maturidade deixam de ser inúteis. Temas, muitas vezes, irrespondíveis. Contudo, o último artigo de Joaquim (“Da precariedade da vida e outras finitudes”) trouxe recordações desse passado, de algumas leituras posteriores, de algumas experiências e relatos que me foram expostos em diferentes momentos da vida. Um relato recente, em especial, foi para mim bastante marcante.

 Soube de outro amigo, que ao viajar recentemente à Buenos Aires teria ido a uma casa de tango, daquelas bem turísticas e comuns nos roteiros argentinos.  O ambiente das casas de tango geralmente seduzem com  o requinte, a sensualidade e com a nostalgia, onde o passado, sempre melancólico, tem por assim dizer, um panteão portenho de figuras inesquecíveis: Carlos Gardel, Aníbal Troilo, Juan D’Ariezo, Astor Piazzolla entre outros. 

        Alberto, o amigo que eu mencionei, entusiasmado, fora a “casa” no bairro de Abasto – um  detalhe importante  que aumentaria, mesmo que alegoricamente, o sentimento de que se visitava não apenas geograficamente a capital portenha, mas se caminhava nas “Calles” do tempo. A casa estava lotada e mal o espetáculo havia se iniciado, em torno de trinta minutos, Alberto começou a sentir uma dor ou, mais precisamente, um incômodo leve no abdome que foi progressivamente se disseminado por todo corpo num misto de calafrio, vertigem e  cólica.  Sem saber ao certo o que acontecia, resolveu ir ao toalete para lavar o rosto ou simplesmente arejar-se com a luz mais intensa do recinto e, desse modo, diminuir um zunido que se iniciava nos ouvidos. No caminho, desceu um degrau, ou talvez dois, e, surpreendentemente, os seus olhos no meio daquela penumbra, abriram-se, nitidamente, não mais para o caminho do toalete, mas para a rua, o lado de fora da casa de Tango. Bem rente ao solo - estava no chão com a cabeça apoiada nos braços de algum engravatado - constatou que havia muitas pessoas que lhe  dirigiam  palavras, em tom de apelo, em português e castelhano. 
                           Confuso, leitor? Sim, provavelmente. Alberto, contudo, explicou-me melhor, embora que tenha sido assim que ele viveu e narrou esse acontecimento. O fato foi mais longo no tempo para quem que o assistiu o curto percurso de Alberto. Houve um hiato de longos cinco minutos. No caminho do toalete, o rapaz havia desmaiado, fora socorrido e levado pelos braços e pernas por argentinos e brasileiros para lado de fora da casa de show. Esse trecho de tempo, tenso e comovente, foi uma cena por ele jamais vivida. Sua recordação era sumária: o caminho do toalete seguido das luzes avermelhadas da rua de Buenos Aires. Ao ser abordado lá fora, na ocasião, se estava bem, disse que estava perfeitamente bem; seu rosto lívido, contrariando a ideia de quem teria sofrido um mal estar severo, parecia, na realidade, utilizar-se do frio como um éter prazeroso. Utilizo a palavra éter não por acaso, pois Alberto disse que tivera uma experiência minimamente parecida ao usar lança-perfume há cerca de 20 anos.
                           Sua indagação: seria isso a morte? Seria a síncope – esse elemento tão tangueiro - o intervalo da morte em vida? Essas indagações, na verdade, trazia-lhe contraditoriamente uma sensação de alívio e de reconforto, pois a ideia que tinha da morte era de um lamentável vazio, de uma interminável escuridão, de um lugar eternamente silencioso. Nenhum desses três elementos estava presentes naquela noite. Não houve buracos, as luzes não se apagaram, os sons não se interromperam – o som sincopado do tango trás essa vantagens.  Nada disso aconteceu. E o que foi que houve? “Nada aconteceu”, respondeu.  A morte era esse “nada acontecer”, era esse hiato onde sequer havia aflições.
            Esse relato me fez lembrar um episódio semelhante, embora mais grave, vivido há quatro séculos pelo filósofo Michel Montaigne. Do mesmo modo, após sofrer um acidente ao andar de cavalo, viveu “intervalo” semelhante, e esse acidente de equitação, que o deixou entre a vida e a morte, fez com que tomasse decisões e redefinições importantes na sua vida como narrou sua biógrafa, Sarah Bakewell (autora do recomendado texto “Como Viver: Uma Biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de respostas”)

Acredita-se que os seus famosos “Ensaios” teriam se iniciado após essa vivência, quando se encastelou na biblioteca de seuChâteau em Bordeaux.  Nos seus escritos a ideia de vida e de morte ocupam parte do seu pensamento, contudo, sem aflições, tampouco resignações. Cético, o mesmo Montaigne que disse:  “Todos os dias vão em direção à morte, o último chega a ela” ou  “Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.",  é o mesmo autor das frases: “Ensinar os homens a morrer é ensiná-los a viver" e  "Viver é o meu trabalho e a minha arte" ( Montaigne também leu Sêneca).


Hans Holbein, o Moço 
Os Embaixadores, 1533, óleo e têmpera sobre madeira. National Gallery, Londres – Inglaterra:



                           Os conceitos parecem se misturar entre o linear e o paradoxal quando se trata de falar de vida e morte. Representa-se com habilidade as coisas da vida, mas a morte parece que não tem ícones. Uma imagem, contudo, ainda me impressiona no quadro de Hans Holbein “Os Embaixadores”.  Na pintura renascentista assiste-se a uma cena, um retrato cotidiano do século XVI, mas se nos detivermos num detalhe abaixo dos retratados, observa-se algo disfórmico atravessar-se como um artefato.  É um crânio distorcido. Essa enigmática imagem tem se desdobrado em várias discussões sobre a ideia de morte e de vida, enfim, da finitude comentada por Joaquim.  Ao ver esse quadro pude entender que a vertigem sentida na Casa de Tango, anuncia essa ideia de morte com o crânio disfórmico – uma ideia angustiante.   “Apenas anuncia, nada mais que isso...”, corrige-me Alberto. Porque, como ele bem disse, não há metáforas para o “o nada acontecer”. Não há tangos sem síncopes.

Marcos Creder

domingo, 2 de junho de 2013

Lanternas de cinema


Quando eu era criança, perto já da adolescência, ia com muita frequência ao cinema e tinha duas categorias de filmes que eu assistia: os filmes que assistia com minha mãe e os filmes que assistia com meu pai. Eram dois continentes cinematográficos diferentes. Com minha mãe íamos assistir, eu e meus irmãos, aos filmes de Jerry Lewis, Renato Aragão, Mel Brooks e muitos desenhos animados da Disney. Eram filmes que assistia em dias de semana à tarde, em que podia se encontrar, eventualmente, alguns de meus colegas de colégio. A diversão cheirava a pipoca e tinha gosto de Mentex ou chocolate Alpino. Éramos guiados e fiscalizados por lanterninhas. 

Já com meu pai a história era diferente. Ele, em vários sábados, daqueles tempos, levantava-se do sofá solenemente e dizia, “quem quer ir ao cinema?”. Eu me candidatava, e em seguida ele folheava o jornal e complementava, “você pode ir, a censura é até os dez anos”. Geralmente íamos só nós dois – meus irmãos tinham mais o que fazer. Os cinemas que me meu pai frequentava eram diferentes, estreitos, em locais de difícil acesso, ou teatros improvisados para cinema, com telas pequenas, filmes, muitas vezes, em preto e branco, sem pipoca, sem chocolates, sequer haviam outras crianças, e os adultos assistiam silenciosamente aos filmes (no cinema em que assistia com minha mãe a plateia parecia ser mais um personagem do filme). Quanto aos filmes desses cinemas esquisitos, em meus onze ou doze anos, achava-os lentos, com cenas paradas e intermináveis, e, finais inesperados – enfim, chatíssimos. Mas chatíssimos apenas naquela época. O tempo passou e pude observar que se me era permitido assisti-los, se não havia uma censura ética, havia uma censura cognitiva, onde o "obsceno" seria a minha não compreensão. Eram filmes que hoje considero maravilhosos. Lembro de inúmeros entre inúmeros títulos e diretores: O Enigma de Gaspar Hausen (Werner Herzog – talvez o mais marcante de todos eles), No tempo das Diligências (de john Ford), Cidadão Kaine (de Orson Welles) Noites de Cabíria (de Fellini), Kaos (dos irmãos Taviani), Dersu Uzala (de Kurosawa), Veridiana (de Buñuel), Intolerância ( D.W. Griffift) e muitos Filmes de Chaplin – esses, os mais infantis – e de Ingmar Bergman – os mais difíceis.



Talvez o que tenha me feito relembrar esses tempos tenha sido a recém agradável leitura do livro “Lanterna Mágica” de Ingmar Bergman. Trata-se de uma autobiografia, e, eu sempre fui desconfiado com as autobiografias, pois sou adepto da frase de Nelson Rodrigues: “não há nada mais falso que a entrevista verdadeira”. Numa autobiografia tende-se a fazer certamente um auto-retrato em que o sujeito é um personagem de si mesmo, que ao contrário do personagem fictício – que também tem algo de autobiogáfico – pisa no freio de algumas realidades. Em geral são textos "chapa brancas", mas em Bergman foi diferente, e diferente em vários aspectos. O próprio formato do livro elevou o tom de franqueza, com capítulos desordenados em que não se obedece cronologias de recordações, sem referências precisas de datas. Bergman não é memorialista nem historiador, omite nomes, eventualmente e cai em anacronismos. O leitor se aproxima mais do Bergman homem do que do Bergman diretor e quando esse é, porventura, citado, Mostra-se um diretor reflexivo, autocrítico, mais desamarrado e consequentemente mais desarmado. Na leitura desse livro conheci outros “Bergmans” além do cineasta, conheci uma criança, um adolescente inseguro, e conheci um homem de teatro – talvez, para minha surpresa, mais de teatro que de cinema. Essa revelação que para muitos não é nenhuma novidade, fez com que eu refletisse sobre seus filmes. As cenas de Bergman eram diferentes. Seus filmes eram teatros filmados, se utilizava dos mesmos recursos cênicos e alegóricos das dramaturgias. Um teatro a céu aberto fortemente influenciado por Ibsen e Strindberg. O auto-relato sobre sua obra não o faz daqueles autores que se passam por modestos, não há nada de modesto em Bergman, mas seus comentários sobre seus filmes são de uma franca autocritica, tão seca quanto a dos seus críticos. Há momentos que chega a tratar com certa desconsideração alguns de seus filmes mais famosos como “Sonata de Outono”, ou “Sorriso de uma Noite de Amor”.




Sempre julguei os filmes de Bergman como densos, urbanos  - ou cosmopolitas - longe da esfera das preocupações regionais. Enganei-me em  saber que foi em Faro, uma ilha no mar Báltico, que foi montado e locados muito dos seus famosos filmes. Nova Iorque ou Londres eram-lhe cidades atormentadoras.

Cada vez mais me convenço de que cinema ou literatura “regionais” são modalidades estéticas que se passa fora da metrópole do primeiro mundo - apenas isso.

Marcos Creder