quarta-feira, 4 de julho de 2012

ESPAÇO DO COLABORADOR Teatralizando, mascarando e vivendo.


Andreza Crispim(curso de psicologia - FAFIRE).



Dias atrás participei de uma oficina de máscaras em um grupo de teatro amador do qual sou integrante. Tínhamos como finalidade produzirmos máscaras de gessos no rosto de um colega e vice-versa. A experiência desse momento me submeteu a diversas reflexões. Enquanto estava sentada e o meu parceiro de grupo colocava vagarosamente as folhas de gesso sobre meu rosto procurei ficar calma. Rapidamente minha boca foi silenciada e em seguida meus olhos foram fechados. Não podia sorrir, não podia chorar, nem fazer movimentos bruscos. Diante de tal situação busquei concentrar-me no que estava sendo feito e meus pensamentos alçaram voo.


Notei que quem estava a montar minha máscara não era eu, mas sim um outro. Ele moldava o gesso aos traços do meu rosto à sua vontade e aos limites da minha face. Ela seria o resultado do nosso encontro e o produto seria fruto de nós dois.

 Várias camadas foram colocadas sobre minha pele. A primeira foi fria e causou desconforto, mas logo me adaptei, pois era leve. As seguintes iam se destacando em relação ao peso, porém o frio não era tanto e estava mais acostumada com a sensação que elas proporcionavam. Ao longo do processo sentia-me mais afastada, mais interiorizada. Algo estranho estava se formando no meu rosto, destacava-se, distanciava-me. Já não estava mais a vista. Escondida sob uma montanha de gesso sentia-me a vontade, arrisquei até uma dancinha com os braços, claro que com cuidado para não machucá-la.

Com o passar do tempo tive que me concentrar na respiração. Às vezes ficava ansiosa. Sentia-me presa. Voltava os pensamentos para a respiração e procurava confiar no meu colega. No entanto, ele cometeu uma falha: estava tampando meu nariz. Quando adicionou mais uma camada a essa região percebi que aquela pequena passagem de ar foi interrompida e comecei a sufocar. Passei a respirar com mais força, mas não havia ar. Os outros integrantes perceberam e após poucos segundos abriram um pequeno buraco e pude respirar novamente. Contudo, nesse meio tempo não fiquei nervosa. Respirava fundo para tentar abrir uma passagem pela lateral e esperar alguma solução. Pensava apenas em não arrancar a máscara naquele momento, pois a estragaria. Ela já pertencia a mim e eu a ela.

A fase final do processo foi particularmente interessante. Outro membro do grupo veio ao meu ouvido e sussurrou uma série de frases. Pedia que fizesse alguns movimentos com o rosto, que tocasse calmamente a máscara e sentisse que aquilo não era mais eu, era qualquer outra coisa criada a partir de mim. Foi aos poucos a soltando de minha pele e disse que da mesma forma que a construí poderia me desfazer dela, não pude me conter e as lágrimas rolaram.


Pensando em como se dão os relacionamentos na sociedade e o desenvolvimento da personalidade humana, essa experiência que descrevi é um reflexo desses pontos. O convívio social exige de nós alguns artifícios e estes nos ajudam a nos adaptarmos ao mundo e às suas regras, valores e crenças.

A máscara no teatro tem várias funções e entre elas está a de preservar o ator dos olhares do público podendo ele observá-lo livremente. Esse instrumento desrealiza a personagem, pois introduz um elemento estranho entre o ator e o espectador que interfere na identificação deste com aquele. Ela é usada frequentemente quando a encenação busca evitar uma transferência afetiva e distanciar o caráter e será apenas no conjunto da encenação que seu uso fará sentido.

        No cotidiano, assim como no teatro, nos valemos de máscaras que colaboram para a vida social e preservação do nosso eu. É completamente saudável e compreensivo o uso destas. Contudo, quando se trata do humano nada é tão simples quanto parece. Aquilo que um dia foi saudável e colaborativo pode se transformar em um empecilho para a vida social e pessoal. Caberá a cada saber utilizar sua mascará de forma que não se venha perder por trás dela ou confundir-se. Ela pode e deve sair do rosto quando for conveniente. É fundamental saber retirá-la e encenar com o rosto nu.

domingo, 1 de julho de 2012

RAÍZES PSICOLÓGICAS DA PSICOTERAPIA: ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO


Vive-se hoje tempos onde a tecnologia predomina em praticamente todas as áreas humanas e sociais. Quem atualmente, urbanamente falando, consegue viver sem internet e celular, por exemplo. Muitos poucos. Embora a tecnologia seja para a humanidade uma poderosa ferramenta em seu constante avançar, bem como seja inegável a importância da mesma para a evolução do ser humano em geral e que nos facilita a vida sobremaneira, o surgimento cada vez mais rápido de novas tecnologias está gradual e processualmente levando-nos a cada vez mais sermos dependentes delas. Com a popularização crescente de smartphones, tablets, net books, games eletrônicos, iPods, redes sociais, GPS, etc e tal, tem nos levado a uma sensação subjetiva e real de que estamos em um universos múltiplo e dinâmico em constante transformação e mudanças. Mal aprendemos uma ferramenta tecnológica e já surge outra, e outra e outra...
                Certa vez, no distante ano de 1979, disse o historiador e crítico social  Cristopher Lasch que pós-modernidade gera pessoas pós-modernas. Sim a cultura do narcisismo venceu e agora impera. Alguém, até, já nos denominou de “geração fast-food”. Era, portanto, inevitável que no corre-corre da vida bulímica contemporânea e com o impregnar tecnológico em nossos cotidianos o mesmo não respingasse no campo das chamadas psicoterapias. Não falo aqui da tecnologia propriamente dita, mas da maneira de pensar tecnocrática. Pós-modernidade gera pessoas pós-modernas.
                As psicoterapias estão correndo o risco de se transformarem em abordagens psicoterápicas puramente técnicas, isto é, com predominância quase exclusiva da técnica com secundarização e quase olvidar dos aspectos psíquicos e subjetivos inerentes nos quais se baseiam o encontro terapeuta-cliente. Na balança da técnica e da arte, na qual se realiza qualquer psicoterapia, pende-se perigosamente para a técnica em detrimento da criatividade e da arte. Digo perigosamente pelo receio (ou seria temor?) de que os psicoterapeutas deste já não tão iniciante assim século XXI se transformem em psicotecnocratas, em um verdadeiro culto, muitas vezes pouco refletido, à hegemonia da técnica com consequente “esquecimento” do humano propriamente dito. Humano aqui - entenda-se - algo além e muito além do que somente síndromes e sintomas.

                A excessiva padronização de técnicas descritas em manuais, a exagerada preocupação com monitorização de comportamentos e ideações, o reducionismo pretensiosamente científico da maneira de abordar, o modelamento engessante da sistematização operante, o mapeamento enfático através de questionários, a preeminência do que é observável empiricamente, a sobreestimação do racional sobre o emocional, entre outras coisas, está empobrecendo a riqueza do encontro psicoterápico na exaltação ao sintomático. Tudo isso tem sua relevância e sua importância, mas tudo isso não é toda psicoterapia. Existe, evidente, o sintoma apresentado, a pessoa que se apresenta e a própria relação que se presentifica entre o terapeuta e o cliente/paciente. Todas as citadas existências existem em um único momento psicoterápico, assim como existe uma significativa diferença entre o melhorar e o mudar.
                Técnicas e estratégias de abordagens à parte, o que sustenta uma relação psicoterápica são os aspectos psicológicos e inespecíficos de qualquer encontro humano e intersubjetivo. O psicólogo Carl Rogers muito contribuiu para o estudo da psicoterapia, principalmente em seus elementos eminentemente subjetivos. Em sua visão claramente humanista do processo psicoterápico Rogers enfatizou o trabalho terapêutico como um facilitador do potencial de crescimento psíquico que existe no cliente, aliás, em todo ser humano. A aceitação da pessoa como ela é, a empatia e a congruência estão para Rogeres como precondições básicas que facultam, proporcionam e viabilizam a própria psicoterapia tanto como encontro humano como tratamento. Intuição, sensibilidade e compreensão emocional, feeling, timing, inventividade, comunicação e receptividade afetiva, e outros atributos pessoais que deve ter um psicoterapeuta são por demais necessários a qualquer bom funcionamento psicoterápico. Muito mais do que um psicoterapeuta faz é quem o psicoterapeuta é, pois este é, sem sombra de dúvidas, o principal instrumento da psicoterapia: o self do psicoterapeuta.
                Dentro de um rigor pretensiosamente científico estabelece-se o paradigma de que a eficácia de uma psicoterapia é a técnica empregada e a teoria na qual ela se baseia, e assim se esquece de que os efeitos terapêuticos de uma psicoterapia qualquer têm mais a ver com a relação que se estabelece. É o próprio relacionamento em si que será o grande propulsor e agente de mudança e isto, por sua vez, só será possível quando o psicoterapeuta espontaneamente se permita criar uma psicoterapia única e exclusiva, ou seja, uma psicoterapia que só existe para aquele cliente, que se construiu como relação a partir das demandas, da personalidade e das idiossincrasias da pessoa chamada cliente.
                Evidente que não estou a mencionar coisas novas. Não, pelo contrário. Talvez esteja é evocando o que estamos esquecendo quando sem nos aperceber estamos quase na iminência de nos tornarmos profissionais de manuais, muitos deles verdadeiras “receitas de bolo”. Na ânsia cientificista, que às vezes camufla uma ideologia a serviço de interesses econômicos (entre eles a indústria farmacêutica), cada vez mais se desenvolvem técnicas lastreadas e estruturadas em protocolos de atendimento voltados a tipologias e a problemas específicos com grave comprometimento à singularidade de cada pessoa ou caso. E não estou sozinho, é claro. Em minhas inquietações, questionamentos, reflexões e andanças tenho-me deparado com outros que igualmente compartilham da mesma preocupação. Entre eles gostaria de citar o excelente trabalho publicado pelo pessoal de pós-graduação em Psicologia da PUC (RS) Marta Ludwig, Marlene Strey (minha ex-orientadora de mestrado, saudades) e Margareth Oliveira, “Tratamentos Manualizados: Psicólogos Matemáticos?”. Dele reproduzo o seguinte trecho:  “As técnicas, por si só, são vazias se não houver esta base forte e bem trabalhada. Talvez seja mais benéfico para o paciente ter uma boa relação terapêutica, mesmo que não sejam trabalhadas técnicas específicas para o seu problema, do que ser submetido à técnica mais pesquisada e empiricamente eficaz se não foi estabelecido um vínculo afetivo, de empatia e de confiança”. Sim, a relação humana é fundamental.
            A relação é fundamental, principalmente porque é ela que aciona os aspectos e fatores psicológicos e potencialmente salutogênicos que há em qualquer ser humano em suas relações com outros seres humanos.  E é sobre isto que iremos versar na próxima continuação deste texto, em breve.
(continua)

Joaquim Cesário de Mello

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ESPAÇO DO COLABORADOR: O que aprender com a solidão



Por Maicon José de Jesus Vijarva (UNILAGO, em São José do Rio Preto -SP)

Quando o sol nasce é como se mais uma vez pudéssemos ter a chance de repensar nossas falhas, reorganizar as linhas tortas que descrevem nossa história de vida, não é reescrevê-las, mas organiza-las em nosso ambiente psíquico.  Todas as manhãs, quando abrimos os olhos e enxergamos à realidade, nos perguntamos como será nosso dia, nesses ensejos que a esperança assume corpo em nossa alma, procuramos a partir da esperança, ter fé que nosso dia será maravilhoso, confiamos que sejamos capazes de compreender e aceitar nossos pontos falhos – obscuros de nós mesmos –, observar nossos erros como um crescimento e não nos culparmo-nos por tê-los cometido.
Em nosso cotidiano, frequentemente nos sentiremos envolvidos pela solidão - solidão é a arte do encontro com o vazio existencial. Esse vazio traz duplo sentido. Um é o da existência, da busca de um significado metafísico; o outro é o da ausência, da perda do objeto importante. A liberdade é uma descoberta solitária e por isso muitos tentam evitá-la. A solidão é um sentimento que acende a angústia e que nos coloca perante uma dimensão em um mundo interior onde a chave é o sentido do mundo, o porquê das coisas, as perguntas que fazemos e para as quais não encontramos respostas. Para Freud a angústia é um mecanismo de defesa que se organiza a partir do conflito que o ego enfrenta ao tentar lidar com três instâncias: os desejos do id, as imposições do superego e as exigências da realidade.  O sujeito necessita estar com sua estrutura psíquica bem formada, pois será necessário criar um equilíbrio, para lidar com essas três instancias.
Devemos nos permitir navegar por dimensões nunca apreciadas pela realidade, certamente é crível notar que uma forma razoável de suportar a realidade é fantasia-la algumas vezes, do mesmo modo como uma criança o faz.  Conviver com a solidão não é uma coisa simples, como escolhermos se queremos ou não senti-la, impossível, por mais que negamos sua existência em nossa alma, sempre iremos senti-la – é aquele vazio que existe dentro de nós que insiste aparece e desaparece sem avisar –, a solidão, igualmente como a doença, pode ser uma passagem para amadurecimento do psíquico, para construção de uma vida psíquica saudável.
É prolixo contermos a coragem de aprender com a solidão e não somente rejeitá-la. Rejeitar nossa solidão é o mesmo que rejeitar nossos defeitos, nossas mazelas humanas. É como evitar falar em doença e ingenuamente acreditássemos que a doença deixasse de existir. Há pessoas que fazem de tudo para evitar falar sobre a solidão, sobre a doença, sobre as mazelas humanas – não é fácil falar sobre aquilo que nos leva ao desconforto.  No fundo, é apenas uma tentativa de se evitar o contato com a realidade.
Passamos grande parte de nossas vidas querendo compreender os outros, desejando viver seu mundo, achamos perfeito o mundo em que vivem, contudo, não sabemos o que eles fazem para suportar e lidar com seus defeitos, falhas e seu vazio por detrás do falso eu que protege o seu verdadeiro eu.
O que é solidão? O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) afirma em Ser e Tempo que estar só é a condição original de todo ser humano. Que cada um de nós é só no mundo. É como se o nascimento fosse uma espécie de lançamento da pessoa à sua própria sorte. Podemos nos conformar com isso ou não. Mas nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão e com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, dependendo do modo como interpretamos a origem de nossa existência. O homem se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.
A verdade é que permanecemos absolutamente indolentes e apreensivos para buscarmos novas relações, torno a insistir no medo da memória, pois esta encerra o temor ou uma negativa ao novo, dizendo-nos constantemente que se nos arriscarmos novamente, todo o sofrimento que vivemos no passado poderá se repetir. FREUD chamava esse mecanismo psíquico de "compulsão à repetição", uma tentativa neurótica de reviver constantemente um trauma, até que a pessoa se torna cônscia do processo que havia direcionado principalmente seus afetos.
O psicoterapeuta Flávio Gikovate cita que a solidão é boa, que ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são como ficar sozinho: ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo.
Apesar disso, a solidão pode ser usada a nosso favor ou não, ficar sozinho nos leva a conhecermos a si mesmo, aprendermos a lidar com nossos medos, angustias e nossos defeitos; criar uma estrutura psíquica para poder ser uma boa companhia para nós mesmos.  Observamos o quão difícil é aceitar o outro, não obstante se torna mais difícil conviver a aceitar a si mesmo ao ter que conviver e aceitar o outro. A solidão pode ser tanto uma amiga quanto uma inimiga, só depende de nós cativa-la.  Destine um preciso instante a fechar os olhos, abrir seu coração e sentir todo o amor que vem de dentro dele, no seu silêncio natural e saudável. Cuide de você. Crie formas para viver e suportar sua realidade. Quando carecer articular – pense -, pois os ignorantes não podem compreender o valor da solidão do seu silêncio.

domingo, 24 de junho de 2012

UM MUNDO DESATENTO


Há momentos no cotidiano em que algumas palavras tendem a serem utilizadas como gírias e  são assim banalizadas por conta de acontecimentos da atualidade. Palavras como “sustentabilidade”, “inclusão”, “globalização”, “contemporaneidade”, “expertise”, “customização” são termos que trazem temas de alguns problemas vividos na atualidade e são rapidamente desviados das reuniões técnicas e sociais às conversas de botequim. Isso é um acontecimento comum, que dá flexibilidade a língua e dela se constroem novas metáforas do dia a dia – lembro-me da presidente Dilma utilizar a expressão “Tsunami econômico” (há dez anos, certamente, poucos teriam entendimento do que ela queria dizer).

Algo, contudo, chama-me atenção na utilização dessas palavras em algumas áreas do conhecimento. Muitas vezes, observo que alguns ditos, que diz respeito aos fenômenos psíquicos, podem, por assim dizer, nessa banalização, criar alguns equívocos. Um exemplo simples: há uns vinte anos, um quadro de transtorno psíquico em que havia fases de euforia e fases de depressão era chamado entre os psiquiatras de Psicose Maníaco-Depressiva. Hoje, em razão do tempo e das constantes mudanças nas classificações psiquiátricas, cunhou-se um novo nome: Transtorno Bipolar do humor. Interessante que no momento em que se muda de nome – um nome menos grave e mais abrangente –  o números de acometidos parece ter aumentado. Vejo com freqüência alguém dizer que “tem um pouco de bipolaridade”, ou que um amigo que  esteja “bipolar ou depressivo”. Dificilmente no passado se ouviria: “eu tenho alguma coisa de psicótico maníaco-depressivo”.

Estar com pânico, estressado ou com Alzheimer, ou ainda ter uma vida meio esquizofrênica, assim como ter vários ex-namorados psicopatas, tornaram-se palavras doces do dia-a-dia. Até aí nada de mal, enfim, são palavras que são introduzidas na comunidade e elas, por si só, criam suas ressignificações.  Cabe lembrar, contudo, que quando está se falando de transtorno psíquico seria importante deixar as metáforas e as imprecisões de lado e se deter no conceito clínico do evento. Vou citar um exemplo.

Há uma tendência das pessoas procurarem profissionais para se tratarem de Hiperatividade – a nova epidemia da atualidade. Na verdade, essas pessoas que nos veem, muitas vezes, já tem em mãos um questionário preenchido e, não raro, já nos solicita a prescrição de determinada medicação. Os argumentos que são simples: distraibilidade, desatenção, e dificuldade de concentração. Interessante que poucos falam do nome principal: Hiperatividade. Hiperatividade, na verdade, é o sobrenome de TDAH (Transtorno do Déficit da Atenção com Hiperatividade – um fenômeno que clinicamente existente, mas que está sendo inflacionado por falsos diagnósticos).  Muitos desses clientes que se auto-diagnosticam com esse transtorno estão passando por algum processo seletivo – vestibulares, concursos públicos – ou, simplesmente, estão sendo obrigados a fazer trabalhos que envolvam leituras ou reflexões de maior complexidade. Cabe destacar que essas mesmas pessoas raramente ficam “desatentas” quando estão navegando na internet ou assistindo a programas de televisão. O que fica claro é que a dispersão reside, essencialmente, na falta de intimidade com a leitura.

Costumo dizer que algumas funções psíquicas passam por reformulações a depender dos recursos técnicos e das aspirações sociais do período histórico a que estão submetidas. Enquanto que o raciocínio do passado era moroso como num jogo de xadrez, atualmente os games tornam-se ávidos por vitórias/derrotas breves; enquanto, em outra ocasião, se tinha uma vida mais contemplativa e muitas vezes reservada, hoje se deseja aqueles cinco minutos de fama nos sites de relacionamento, com milhares de frases descartáveis. A vida em rede aumentou a intolerância dos apressados, intensificou o tédio para as leituras e diálogos mais extensos e essa impaciência aumentou, inclusive, na audição de  músicas ou melodias mais longas –  fala-se pouco hoje em sinfonias, concertos de blues e de Jazz, a expressão  “in concert” está cada vez mais rara.

Recentemente, foi-me indicada a principal obra do escritor francês Marcel Proust (1871-1922) : “Em Busca do Tempo Perdido”. Para se ter ideia, as edições variam entre quatro e sete grossos volumes de minuciosa leitura. Tomei o primeiro volume e vi que Proust escrevia contra todas as regras da redação que se ensina na vida prática, insistia em construir textos com períodos longos, praticamente sem paragrafá-los, mantendo capítulos extensos e sem tomar cuidado com as palavras repetidas. Que fiz, então? Li as primeiras cinqüenta páginas e refleti “acho que estou hiperativo" (na verdade, “desatento”), minha leitura tendia a dispersão. Terminei de ler o primeiro volume e indaguei: “maravilhoso...”.  Nas primeiras cinqüenta páginas senti que tinha pressa demais, uma pressa do século XXI, aquela aflição que hoje as pessoas tem em chegar a última página de lugar nenhum. E daí por diante, entreguei-me ao um diálogo com Proust, um diálogo longo, inteligente, sensível. A leitura do texto seria semelhante a uma visita a um museu de quadros impressionistas em que seus posicionamentos perto/longe, frente/diagonal mostram o estado de espírito e as nuances  de uma conversa agradável.

Quando recomendo esse texto, as pessoas rebatem, “Não tenho tempo”, “A vida de hoje não dispõe de tempo para esse tipo de leitura”. Cabe lembrar que até na ocasião do lançamento do livro, Proust advertiu que tecia um grande tapete num momento em que as moradias estavam ficando pequenas. Imagine-se, então, um jovem imprensado pelo mundo das informações breves, encontrar nesse espaço limitado, esse extenso tapete?  O que há, enfim, nesse tapete? Letras que formam palavras, que formam frases, que formam texto, que fazem livros. Enfim, estamos muitos desatentos (dispersos) para  leituras.

Marcos Creder

domingo, 10 de junho de 2012

A TRAGÉDIA DE ONTEM DA HISTÓRIA


Um dos temas trágicos da humanidade que ainda me surpreende, e sempre me surpreenderá, apesar das inúmeras tragédias cotidianas, é aquele que se relaciona ao extermínio dos judeus na 2ª Guerra Mundial. Sabe-se que é bastante explorado pela literatura e, principalmente, pelo cinema e, para alguns, é um enredo desgastado ou repetitivo – discordo dos que pensam assim, acredito que, em se tratando dessa passagem da história da humanidade, a repetição é necessária e bem-vinda.  Precisamos de alguns “mantras” para que possamos incorporar alguns valores éticos e evitar atos hediondos e, por fim, se utilizarmos elementos estéticos nessas narrativas, faremos, quem sabe, arte. Uma repetição, contudo, deixa parcialmente de sê-la, no momento que mudamos de foco.  Cada filme que vejo ou cada texto que leio, que faz referência a essa época, percebo  por  um novo enfoque, mas o sentimento de horror se repete, e, se repete tão inusitadamente, que faz pensar, ilusoriamente,  que nunca tinha visto episódio tão trágica  quanto esse genocídio cometido nesse “dia de ontem” da história da civilização.
Na verdade, já se tentou dar várias explicações ao nazismo e, principalmente, aos nazistas e, muitas vezes, a solução mais usual – ou mais “cômoda” -  seria tentar, por assim dizer, psiquiatrizá-los, julgando-os como loucos, desequilibrados, psicopatas etc. Controvérsias à parte, prefiro utilizar a definição de Hannah Arendt: eram pessoas “terrivelmente normais”. Esses “normais” e essa “normalidade”, acrescento, não é histórica, não foi daquele época, não pertence a outra etnia, não faz parte de uma religião, nem mora do outro lado do continente, tampouco do outro lado da cidade. Ela habita muitos discursos de pessoas iguais a nós.    
 Assisti ao filme “A Chave de Sarah” (2010) do diretor francês Gilles Paquet-Brenner.  O filme narra um episódio  da  França ocupada pela Alemanha nazista, uma França que se mostrava mais colaboracionista – enfim, da França da "Resistência" que costumamos  ver nos livros de história . A maneira como a comunidade judaica foi presa e deportada aos campos de concentração e de como parte da população francesa apoiou ativamente, particularmente me surpreendeu e me fez pensar se a humanidade, de fato, não seguiria as linhas de pensamento de Leviatã de Thomas Hobbes. Não seria a sociabilidade acidental? Não se reduziria a moral aos interesses, às paixões e ao conatus (instinto de conservação individual)?
Duas personagens se destacam no filme: Júlia Jamond, uma jornalista norte-americana radicada na França dos tempos atuais que tem como objeto de pesquisa justamente o dia em que cerca de 12 mil judeus foram presos, e,  Sarah, uma criança de dez anos de idade, uma dessas prisioneiras. Enquanto Júlia procura desvendar os mistérios desse passado, Sarah, após fugir do campo de concentração, vai tentando se ocultar no futuro. A fuga de Sarah tinha pelo menos dois objetivos: carregar uma chave e sobreviver.             Metaforicamente as duas coisas são postas em prova pela crueldade dos acontecimentos da 2ª. Guerra. Contudo, Sarah sobrevive àquela época e Júlia consegue desvendar minúcias do acontecimento. Enfim, falando desse modo, poderíamos interpretar que o filme conclui, como muitos concluiriam, sua narrativa de forma alegre ou pelo menos esperançosa. Mas não foi bem assim que os fatos aconteceram.
Uma pergunta muitas vezes se deixar esquecer quando, aliviados, saímos de um recorte cinematográfico de uma tragédia: que resíduos deixaria, naquelas crianças, ou mesmo nos adultos, a experiência trágica? Tendemos a acreditar, infantilmente, que as histórias épicas desses heróis, que vivem horrores semelhantes, após fazer essa travessia – essa Odisséia – caminham naturalmente para a vida das pessoas normais. Será?
 Ao questionar esses resíduos ou sequelas, vem sempre a minha lembrança a história de uma das inúmeras vítimas de Auschwitz, o mais terrível campo de concentração nazista. Trata-se do escritor Primo Levi, judeu italiano, que milagrosamente sobreviveu ao extermínio e que depois de terminada a guerra, dedicou-se  boa parte de sua vida a pergunta que deu título a um dos seus livros mais famosos,  “É isso um homem?” – texto que narra sua experiência no campo de concentração. Levi voltou à vida comum, inquieto com seus questionamentos, e famoso com sua habilidade de escritor. Foi autor da celebre frase: ‘O objetivo da vida é criar melhor defesa contra a morte". Aos 68 anos de idade, contudo, acidentou-se. Caiu do terceiro andar do lugar onde morava, e ali mesmo morreu. Apesar de controverso, a maioria dos biógrafos atribui a sua morte a um ato de suicídio – ou parafraseando Arendt, a um acidente “terrivelmente normal”.
O filme Chave de Sarah reedita a frase-título irrespondível de Primo Levi: É isso um homem?

Marcos Creder
    

terça-feira, 5 de junho de 2012

TODO PSICOTERAPEUTA É MULHER   


Somos seres biologicamente divididos em dois sexos: macho e fêmea. Já  socialmente somos construídos a partir de dois gêneros distintos: feminino e masculino. Tal construção, por sua vez, se realiza mediante a dinâmica das relações sociais, afinal os seres humanos, ao menos os humanizados, se constroem em relações com outros seres humanos. A pessoa que habita cada indivíduo é, portanto, em parte, uma encarnação das relações sociais.
O conceito de gênero é prestável para aclarar muitos dos comportamentos dos homens e das mulheres em uma dada sociedade. Sim, há diferenças entre gênero e sexo. Todavia deixemos a diferença sexual no momento de lado, visto que são diferenças que estão em nossos corpos, seja em suas externalidades, seja em suas interioridades. Enfoquemos, pois, a alma, ou melhor, o psiquismo humano que constitui a personalidade e a maneira de ser e de se estar no mundo e na vida.
Toda sociedade e/ou cultura cria ideias de como é ser homem e ser mulher. A isto damos o nome de representações de gênero. Homem e mulher, assim, se apresentam biológica e socialmente como opostos e complementares entre si. A construção da masculinidade e da feminilidade são processos correlatos à construção de própria identidade pessoal. Mas igualmente não quero, no pequeno espaço deste texto, ficar aqui a abordar socialmente a questão. Busco questionar em termos psicológicos, embora saibamos que o que chamamos de psicológico é inseparável do biológico e do social.
Psicologicamente falando somos todos duais. A separação do feminino e do masculino não encontra guarida na esfera psíquica. Somos ambos, isto é, masculinos e femininos. E neste sentido Jung foi bastante profícuo e perspicaz. Jung nos fala do anima e do animus, que são opostos inconscientes à persona de um sujeito. Considerando a persona como a forma como nos apresentamos, bem como o papel que assumimos e que por meio dela nos relacionamos com os outros, a persona é um veículo de comunicação entre o nosso interior psíquico com o nosso exterior. Feito uma roupa que se usa, a persona revela nosso estilo pessoal e interpessoal.
A alma ou psiquismo humano tem assim sua dupla face. A imagem como ela se vê enquanto Eu e se identifica, e uma outra que a complementa e que se encontra como um Não-EU, isto é, por detrás do próprio Eu. A consciência masculina tem, pois, sua contrapartida em um anima, enquanto a consciência feminina, por sua vez, tem sua complementação em um animus.
Masculino e feminino, dois aspectos de um todo. Sem fusão, nem confusão. Convencionamos caracterizar como masculino qualidades psíquicas e habilidades tais como: racionalismo e pensamento instrumental, objetividade, maior aptidão motora, orientação espacial, logicidade; enquanto o feminino é caracterizado como sensibilidade, intuição, comunicação emocional, fluência verbal, entre outros.
Venhamos e convenhamos, não se necessita ser homem ou mulher para ter tais qualidades e habilidades acima citadas. Basta ser humano. Qualquer ser humano é ou pode ser sensível, empático, racional, lógico, intuitivo, observador, analítico, paciente, objetivo e subjetivo. Muitas vezes é só se permitir. Outras, desenvolver.
Qual psicoterapeuta, para o bom exercício de sua função, não tem uma percepção mais aguçada das coisas, isto é, sensível? Como auscultar a alma humana sem o se usar a empatia e a dita “inteligência emocional”? Como lidar com sentimentos e aflições alheias sem o tirocínio das próprias emoções em sua habilidade de escutar as modulações e sutilezas emotivas do outro, muitas vezes imperceptíveis aos olhos empíricos do rosto, mas não aos olhos da alma? Que psicoterapeuta consegue navegar no mundo interno de alguém sem a bússola do feeling? Que psicoterapia existe, de fato, sem a calorosa responsividade acolhedora de uma escuta introspectiva e nutriente que possibilita ao cliente um espaço de sustentação psíquica e interpessoal? Afinal, que psicoterapia é essa que desleixa, em nome da rigidez objetiva e racionalista em excesso, o mais importante de tudo: olhar o outro a quem chamamos de paciente/cliente com amor e consideração? Há de se amar, respeitar, aceitar e tolerar, porém com compreensão, estabilidade e firmeza. Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.
O espaço terapêutico por onde permeia a psicoterapia é o instante do encontro entre a subjetividade do terapeuta com a subjetividade do cliente. O bom psicoterapeuta é aquele que propicia, facilita e possibilita tal encontro. A relação psicoterápica, como relação de ajuda, é antes e acima de tudo uma interpessoalidade ativadora do sistema de apego (vide Bowlby) e que assim disponibilizada aciona, por sua vez, no cliente/paciente a capacidade funcional psíquica de buscar e explorar o mundo e a si mesmo, maximizando as potencialidades antes atrofiadas ou hibernantes.
É no diálogo que se faz a escuta psicoterápica. Uma escuta que traspassa os limites da audição e do ouvir, afinal são tantas as comunicações, ao princípio inaudíveis, que flutuam nas entrelinhas discursivas de um setting psicoterápico. É ali que a intimidade se desnuda gradualmente em narrativas impregnadas de sentimentos, sonhos inconsumados, dores, ambiguidades e antagonismos. É ali onde no timbre das emoções mais recônditas e impensadas que emerge uma pessoa antes ocultada pelas inibições e pelo receio de se expor ao desconhecido. Recriar-se nunca é tarefa fácil, pois implica trocar o sofrer repetitivo e familiar da neurose pela dor saudável de simplesmente existir além das cercas. Abrir guarda-roupas e encontrar esqueletos requer tempo, o tempo psicológico da expressividade e da liberação rumo ao crescimento.
Todo bom psicoterapeuta é feito uma árvore que proporciona a sombra e que abriga e nutre. É como um seio que alimenta e um colo que acolhe, protege, sustenta e aquece. É como uma mãe que materna e fortalece seu filho para o vindouro instante em que ela própria se transforma em pai que auxilia o mesmo filho a se lançar no mundo e na vida sem mais necessitar de si. O escutado, assim, toma sua feição com autonomia, autoconfiança e mais autoestima.
Se ser feminino representa aconchego, afeto, intuição, sensibilidade, comunicação sentimental, feeling, introversão, compreensão e reflexão, então todo psicoterapeuta é principalmente feminino. Claro que não somente, pois se ser masculino representa pensar pragmaticamente, instrumentalizar, agir, e objetivar, então todo psicoterapeuta são ambos. É na dualidade da alma que a alma escuta, interage, fala e faz frente psiquicamente à aflição psíquica do outro. Ou como ensina o taoísmo no tocante ao Yin e Yang, é no equilíbrio dinâmico das forças complementares que surge a mudança e o movimento. Não é parado que se cresce. Parado apenas se envelhece.
Sejamos, pois, noite e dia, claro e escuro, passivo e ativo, quente e frio, verso e anverso, tigre e tigresa. Não somos opostos, somos forte e fragilmente humanos. Sejamos inteiros e nos ofereçamos inteiros ao outro que nos procura, pois somente assim podemos nos encontrar. Como diz o poeta Mário Quintana “o segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você”.
“Ser um homem feminino/ não fere o meu lado masculino” (Pepeu Gomes). Em psicoterapia, assim como na vida, exceto na cama e no espelho do banheiro, sou andrógeno.

Dedicado ao colega e supervisionando Leonardo que está em busca de descobrir a beleza de seu feminino

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 3 de junho de 2012

ANOREXIA E A DITADURA DOS QUILOS

Se estivéssemos agora em uma conversa informal, tipo mesa de bar, por exemplo, diria: “pense num filme pesado!”.  Estou a falar de Réquiem Para Um sonho (2000), do cineasta Darren Aronofsky, adaptado do livro homônimo escrito por Hubert Selby Jr. Nele temos a personagem Sarah Goldfarb (interpretada por Ellen Burstyn) que é uma viúva sexagenária que vive sozinha em seu apartamento no Brooklyn, Nova York. Em sua solidão e vida esvaziada ela encontra sentido para sua apagada existência assistindo televisão. Eis que chega um dia em que recebe um telefonema convidando-a a participar de um programa televisivo. Glória para Sarah. Ela passa então a esperar esse momento sublime (seus quinze minutos de fama?) e obceca com o pensamento de voltar a vestir um antigo vestido vermelho para a ocasião.
            Sarah, que não é mais jovem quando da época em que usou o referido vestido pela primeira vez, passa tresloucadamente a fazer um regime com base em anfetaminas e barbitúricos. Com tanta química diuturnamente ingerida, Sarah altera gradualmente seu comportamento. Sua vida agora é emagrecer e aguardar ansiosamente a nova ligação para marcar o dia de sua apoteótica apresentação na televisão. Ela emagrece, mas o convite não surge. Ela emagrece ainda mais e o convite não vem. Chega-se ao ponto em que alucina estar na televisão. Seu fim, previsivelmente trágico, a leva à catatonia e o internamento em um manicômio.
            A miséria vivida pela personagem de Sarah é igualmente acompanhada pelo seu filho Harry e sua namorada Marion, todos viciados em heroína. Além do casal há um amigo também drogadicto. Todos, assim como Sarah, têm um desfecho terrível. O amigo é preso e Harry de tanto se picar tem o braço amputado. Marion se prostitui e participa de orgias degradantes em busca de cocaína. O final do filme é onírico, não no sentido de um sonho dulcorizado, mas sim nos delírios de Sarah que se vê no programa de televisão junto com seu filho, ambos sob os aplausos intensos e calorentos da plateia imaginária.
            Pense num filme pesado. Pois é, a vida também pode ser pesada, principalmente para aqueles que sofrem de anorexia, como Sarah. Definindo resumidamente anorexia nervosa como um transtorno alimentar que envolve uma limitação exagerada de alimentação a ser consumida. Na perda de peso intensa através de dietas auto impostas o anoréxico busca desenfreadamente uma magreza quase esquelética e sofre distorções em relação a sua imagem corporal. Há na anorexia nervosa um “medo doentio em engordar”. Tal medo, conjugado o emagrecimento incessante e autoimagem distorcida, são sinais claros da anorexia.
            Embora a anorexia seja claramente um transtorno psiquiátrico alimentar suas causas ainda não são de todo desvendadas. Acredita-se que possam existir causas genéticas, assim como características psicológicas provocadoras de ansiedade e obsessão. Some-se a isso um ambiente social em que se cultua o corpo magro e temos um “prato cheio” para o desenvolvimento da morbidade em questão. Seja como for, a anorexia é um distúrbio complexo e provavelmente de múltiplas raízes. Em minha prática psicoterápica clínica em todos os pacientes/clientes que apresentavam sintomas de anorexia existia sempre subjacentemente uma baixa autoestima perceptível. Trata-se de pacientes inicialmente refratários ao processo psicoterápico, onde a motivação em progredir é mínima ou quase zero. Em suas atitudes resistentes e desafiadoras o paciente anoréxico muitas vezes é um auto sabotador. Embora saibam de sua necessidade de se tratar o medo em relação à mudança corporal almejada é maior. Por detrás do discurso escondem-se sentimentos de onipotência, bem como certo desejo em não crescer, afinal o corpo de um anoréxico (na sua grande maioria mulheres em fase adolescente) de tão magro e delgado parece ser um corpo de uma criança franzina. Uma moça anoréxica tem um visual estilo “tábua rasa”, ou seja, desaparecem as curvas da mulher e predominam as silhuetas retas da menina.
            Eficácia e resultados satisfatórios parecem advir quando trabalhamos mais focalmente no desenvolvimento por parte do paciente/cliente em lidar, manejar e responder às pressões da vida e da faixa etária. Claro e evidente que somente psicoterapia talvez seja insuficiente, pois na grande maioria das vezes se faz imperante um tratamento de caráter multidisciplinar, envolvendo tanto o psicoterapeuta, quando nutricionista, psiquiatra, clínico geral e até mesmo hospitalização, se necessário.
            Do ponto de vista psicoterápico sou de opinião que deve se dar vez ao discurso idealizado do anoréxico, ou seja, não bater logo de frente com seu consciente anseio de emagrecer, pois, além de uma ideação obsessiva, tal desejo chega às raias de uma espécie de quase delírio. Possibilitar ao paciente, geralmente adolescente, expressar sua linguagem impregnada de temas como corpo, comida e peso, é a mais principal via de comunicação inicial entre terapeuta e cliente. O anoréxico, assim, tem a oportunidade – às vezes única – de se sentir escutado. Embora o objetivo mais visível da psicoterapia seja estabelecer um melhor controle sobre o hábito alimentar, conjugadamente também se foca a autoestima baixa, buscando-se a livre expressão de sentimentos e emoções, bem como gradualmente explorando conflitos psíquicos subjacentes. Quem sabe assim ele ou ela não possa dar novas significações a si mesmo, seu corpo, sua vida e ao mundo que o (a) circunda. Lembremos que um anoréxico, adolescente ou não, necessita desenvolver mais sua personalidade, crescer psiquicamente, e consolidar sua identidade ainda frágil e seu processo de autonomia e individuação.
            Será a anorexia, assim como a bulimia, um transtorno de natureza oral? Haverá um Ideal de Ego exigente a oprimir o ego debilitado? A obsessão é apenas a camada externa de uma melancolia que não ousa dizer seu nome? Estamos frente a uma patologia narcisista? O fechar a boca representa igualmente uma mudez das pulsões? Que fantasmas assombram aquele corpo emagrecido e franzino purificado de pecados? O discurso manifestadamente orgulhoso do anoréxico esconde um bulímico envergonhado? Onde está a libido e seus objetos? Não sei, de antemão, responder. Que tal deixar a pessoa chegar primeiro e poder falar e expressar toda sua humanidade em latência. Quem sabe assim possamos conhecer melhor alguém que muito mal se conhece a si mesmo. A anorexia é o nome de uma doença e a pessoa que se encontra por detrás do doente é muito mais do que apenas um nome.
            Muito prazer, eu sou Joaquim. E você, quem é?...

Joaquim Cesário de Mello