terça-feira, 16 de maio de 2017

DIÁRIO DE AULA: PARENTALIZAÇÃO

O TORNAR-SE PAI E MÃE

Tornar-se pai e/ou mãe é acima de tudo um processo psicoafetuvo. A parentalização é algo que vai além do biológico, que se inicia pela transmissão integeracional, isto é, um trabalho psíquico que consiste em elaborar o que herdamos dos nossos pais e que transmitimos aos nossos filhos a partir da vivência do papel de ser mãe/pai. Não é uma herança genética, mas sim uma herança psicológica. É, pois, um processo complexo consciente e inconsciente.
O psiquiatra e psicanalista americano Daniel Stern, em seu livro A Constelação da Maternidade (Artes Médicas), destaca a dimensão simbólica do nascimento de um filho. Diz Stern que o narcer de um filho na vida dos pais provoca uma neoformação em seus psiquismos e que a inclusão do bebê na mente destes produz mudanças profundas.


O lugar do filho no âmbito da família e do desejo dos pais são temas centrais no estudo da parentalidade. Toda uma metamorfose de sucede. Ninguém está de todo preparado para ser pai/mãe especificamente de um determinado bebê. E é neste sentido que Serge Lebovici entende a parentalização como um processo em que tanto o homem quanto a mulher aprendem a ler as necessidades do bebê por meio dos gestos. Pode-se dizer que ser pai/mãe é uma psico-aprendizagem. O trabalho psíquico começa, pois, pela criança imaginária (idealizada). Quando o filho nasce os pais necessitam passar por uma mudança psicológica que é a de lidar com o filho real versus o filho idealizado. Quanto mais conflitivo for essa relação (real x ideal) maior será a frustração dos pais. O filho real, por sua vez, provoca uma desidealização no imaginário dos pais. Ao longo de toda a infância o embate entre o filho idealizado e o filho real, além das frustrações normais do processo, pode gerar níveis de sofrimentos acima de um mínimo tolerável a ponto de gerar - dizem os estudiosos do campo - distúrbio na relação bebê-pais que, por sua vez, podem gerar impedimentos ou dificuldades no processo de desenvolvimento da criança.


A maternidade introduz uma dialética entre o bebê interno (imaginado) e o bebê externo (real). O bebê real não é um depósito passivo das projeções parentais e suas respostas irão modelar uma parentalidade que não é a exatamente idealizada inicialmente pelos pais. É neste sentido, portanto, que se poder afirmar ser o bebê que irá ensinar os pais a serem pais dele.
A respeito do assunto sugiro aprofundá-lo em:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382010000200010

http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v8n2/1415-4714-rlpf-8-2-0258.pdf

http://www.scielo.br/pdf/epsic/v9n3/a07v09n3.pdf

Joaquim Cesário de Mello

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