quarta-feira, 8 de março de 2017

DIÁRIO DE AULA: PAIXÃO X AMOR



                Muitos acreditam que paixão e amor são a mesmo coisa, muda apenas a intensidade. Outros creem que a paixão vem primeiro e o amor depois, ou seja, que a paixão com o tempo se transforma em amor. Já há quem ache que paixão e amor são dois lados de uma mesma moeda. Deixemos logo claro nossa posição – e abaixo tentaremos explicitar porque – que é a de que paixão e amor são sentimentos distintos que, embora tragam características semelhantes algumas vezes, têm qualidades diferentes, isto é, a natureza da paixão e a natureza do amor são divergentes.
                Comecemos mais uma vez pelo começo de tudo que é a própria palavra que empregamos para falar de paixão e de amor. Paixão vem do latim passione ou passionis que está relacionado ao ato de suportar sofrimento e traz em seu bojo o significado de passividade. Em grego utiliza-se o termo pathos (padecimento). Pathos, por sua vez, também significa emoção (vide a palavra “apatia”) e doença (vide a palavra “patologia”). Como diz Marilena Chauí é ser afetado por uma experiência, emoção ou sofrimento. Pathos é o oposto de práxis (atividade, ação) no sentido em que se recebe o sofrimento. Por isto na semana santa celebra-se a paixão de Cristo, isto é, o sofrimento de Cristo.

                Em uma rápida ida a um Wikipédia da vida temos paixão definida como uma emoção ampliada de maneira quase doentia, ou até mesmo doentia. É um sentir tipicamente doloroso e limítrofe com a patologia onde aquele que é acometido pela paixão perde sua individualidade psíquica devido a atração e o fascínio que o objeto da paixão proporciona. Em sua natureza passiva o apaixonado é representado pela pessoa que se vê “flechado” (acometido) pela paixão. Quem não reconhece nesta imagem a figura do Cupido, por exemplo?

       Paixão, literalmente, é pois uma patologia amorosa, caracterizado pela superlatividade fantasiosa que se tem da realidade do outro (objeto da paixão). Subjetivamente há na paixão um sentimento de fusionamento com o objeto da paixão, pois este é idealizado e quem está apaixonado crê que com ele todas suas carência não mais existirão. Nesta busca narcisista de fusão objetiva-se ilusoriamente a simbiose que um dia tivemos (bebê-mãe) e perdemos. Lembram da última aula (post quarta passada), pois é, o que restou em nossas mentes daquela época primeva e originária do psiquismo onipotente, auto suficiente, grandioso, completo e perfeito, convencionamos chamar de EGO IDEAL. Parece que o objeto amado representa algo deste Ego Ideal projetado nele, e assim tem-se a ilusão de que a união do sujeito apaixonado com o objeto da paixão será uma relação perfeita, um par completo e completamente feliz. O outro como a sua cara-metade. Juntos formam uma unidade plena.

          Atentem que não estamos no conceito “vulgar” de paixão, no sentido popular e romanceado que damos ao mesmo. Em filmes como “Love Story” a paixão é resumida em frases do tipo “amar é ter jamais que pedir perdão”. Ora se amor fosse isto (jamais pedir perdão) significaria que jamais magoaríamos a pessoa amada ou seríamos magoados por ela. E só há uma maneira de nunca magoarmos alguém: sendo tudo o que é ela quer que eu seja, isto é, ser o seu objeto pleno de desejo. E vice versa. 


       Quando uma pessoa se vê acometido pela paixão ela tem fortes sensações de arrebatamento. O coração dispara, não consegue deixar de pensar na pessoa “amada”, sente-se ansiosa e angustiada na ausência desta, quer sempre estar perto da mesma, eleva-se a estratosfera o apetite e a atração sexual dirigido ao objeto da paixão, altera-se o sono, a alimentação e o humor, por aí vai. Tal arrebatamento é consequência de alterações neurofisiológicas no organismo do apaixonado, pois o cérebro se encontra banhado de neurotransmissores e hormônios, entres eles a adrenalina, a noradrenalina e a dopamina. Esta última é responsável pela sensação de dependência em que se acha a pessoa apaixonada em relação a seu objeto de desejo. Também há uma diminuição da liberação de serotonina, fazendo com que a pessoa fique obsessivamente pensando no amado(a) de maneira fixante. Não nos esqueçamos do papel dos feromônios no fenômeno da paixão, afinal estes hormônios propiciam a “comunicação química” entre os apaixonados.
                Pois é. Embora a imagem da paixão esteja associada ao coração (ele dispara), a flecha do cupido não atinge este órgão muscular vital à vida, mas sim o cérebro. Este sim é responsável pelas loucuras da paixão. A respeito do assunto leiam essa reportagem publicada na revista Superinteressante titulada de "A Química da Paixão": http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml
              Resistir à paixão não é fácil não. O queimar da euforia proporcionado pela paixão pode acometer qualquer um a qualquer momento, porém é mais comum na adolescência, a tal ponto que chamamos este período desenvolvimental de “o tempo das paixões”. A explosão química da paixão é capaz de viciar, e há pessoas assim viciadas que tão logo termina uma paixão já está rumando para outra em busca de endorfinas e sensações.
             A adolescência é por natureza o período de vida das grandes paixões, haja vista ser uma fase evolutiva caracterizada pela exuberância hormonal, impulsos e emotividade. O jovem ali se vê em meio a um redemoinho de desejos, sentimentos, dúvidas, que se confundem pela incipiente capacidade cognitiva e emocional de discernir prazer, êxtase, gozo e harmonia interior. Na imaturidade afetiva inerente à adolescência, o amor-paixão toma roupagens idealizantes e, às vezes, possessivas. São sentimentos fortes e avassaladores onde predomina a avidez e a urgência dos afetos. Quando dizemos que “o amor é cego” estamos de fato falando da paixão em seu espírito puramente juvenil.
                Se na adolescência as paixões são uma espécie de teste drive para as futuras relações amorosas da maturidade, no adulto a paixão tem seu caráter regressivo. Não importa a idade que o adulto tenha, apaixonado ele se torna emocionalmente um verdadeiro adolescente.







No tocante às paixões da adolescência remeto você à coleção da revista Mente & Cérebro titulada de “O OLHAR ADOLESCENTE”, mais precisamente o segundo volume “O Tempo das Paixões”. Uma coleção que merece estar em sua estante e que pode ser encontrada através de http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml



          Decididamente paixão não é amor, mesmo que em nome da paixão digamos ao outro "eu te amo". A paixão na adolescência é necessária e normal para o desenvolvimento emocional do indivíduo. Todavia a paixão quando acomete um adulto ela é nada mais nada menos que uma patologia do amor. Fica aqui uma sugestão para aqueles que querem adentrar mais no tema: "A Patologia do Amor - Da Paixão à Psicopatologia", de Tiago Lopes Lino (http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0146.pdf)

Sugestão de leitura complementar:
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=249



 Joaquim Cesário de Mello

2 comentários:

literalMENTE disse...

Belo, pungente e sensualíssimo filme. Para se degustar. Um verdadeiro deleite aos olhos, ouvidos e sentimentos. Uma bem urdida história sobre a paixão reprimida, transpirada nos estritos espaços dos silêncios, olhares, desvios e gestos. Se chamá-lo de sublime for piegas, eu sou piegas.

Joaquim

Jurema Lisboa disse...

Texto explicativo e que verdadeiramente se traduz no que chamamos de "boderline" no estudo da histopatologia das lesões malignizáveis. Resumindo, paixão e amor é viver entre o imaginário e o real, respectivamente.