quinta-feira, 16 de março de 2017

DIÁRIO DE AULA: AMOR


Na aula postada ontem (vide texto abaixo) citamos a etimologia da palavra paixão (pathos). Agora vamos nos dedicar mais ao amor. Etimologicamente sua origem é latina cuja grafia é idêntica amor, cuja raiz é amma (sonoridade infantil chamando mãe) + or (efeito ou consequência).  O sentido expresso no termo é claro: amor é uma resposta afetiva. Será? O que é amor, esta palavra tão gasta e vulgarizada em nossos dia-a-dia?
                Seja o que for amor ele é um afeto, ou faz parte da nossa vida afetiva. Inicialmente parece ter a ver com carinho e cuidado. Como todo afeto o amor é fundamental na criação de nossos laços afetivo com os outros. Uma única palavra, porém com diversos significados, tais como amor físico, amor materno, amor fraterno, amor erótico, amor platônico, amor cristão, amor ao seu time de futebol, amor à vida...
                Sábio eram os gregos, pois tinham várias palavras para significar vários tipos de amor, tais como Philia (amizade), Pragma (praticidade), Storge (pais e filhos), Eros (atração), Ágape (doação), entre outras.  Cada palavra, cada termo, descreve o amor em suas diversas facetas. Assim, por exemplo, quando encontramos na Bíblia, no Evangelho de João, a expressão “Deus é amor”, em grego se escreve Ágape.
                Bem, nossos ancestrais portugueses foram mais econômicos com as palavras e enxugaram tudo em uma única: AMOR. Genericamente podemos definir amor como um conjunto de sentimentos de carinho, ternura, afeição, que se desenvolvem entre os seres que possuem condições de demonstrá-los. Nossa ênfase aqui, neste momento, é nos centrar naquele amor que os gregos chamavam de Eros. Eros envolve a atração física, mas também a atração afetiva. É o amor dos casais. É o amor em sua natureza dadivosa, ou como dizia Saint-Exupéry “o verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem”.

                 Hoje vivemos uma fase em que casamento e amor estão associados, isto é, casa-se por amor, muitas vezes. Mas historicamente antes não era bem assim. Devido ao curto espaço aqui no blog orientamos os interessados na história e na ideologia do amor conhecerem o artigo “Amor, casamento e sexualidade: velhas e novas configurações”, publicado na revista Psicologia: Ciência e Profissão, de autoria de Maria de Fátima Araújo, através de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98932002000200009&script=sci_arttext. Para maiores aprofundamentos, imprescindível o clássico livro HISTÓRIA DO AMOR NO OCIDENTE, de Denis de Rougemont. Livro difícil de encontrar, talvez nos sebos da vida.

       Herdamos de Platão a fórmula do amor: “amor é desejo, e desejo é falta”. Porém há uma aparente contradição nesta fórmula, ao menos em termos de permanência e continuidade do amor. Se amor é desejo e se desejo é falta, então amamos o que nos falta, ou a falta no direciona a amar e a buscar. Acontece que se conseguimos atingir nosso objeto de desejo (objeto do amor), então ele não mais nos falta, visto que o “possuímos”. E se desejo é falta e se não nos falta mais o objeto, então não mais desejamos. E se amor é desejo, e se já “possuímos” nosso objeto de desejo, então por não haver mais falta não há mais desejo, assim como sem haver desejo não há mais amor. Complicado, não? Imagina o imbróglio filosófico da questão.
                Pois bem. A contradição acima está na estreita relação entre amor e desejo. A saída à “sinuca de bico” nos foi dada inicialmente por Santo Agostinho. Ele, sem abandonar a ideia platônica de que amor é desejo e desejo é falta, nos propõe a compreender a questão nos seguintes termos e significados: quando se tem o objeto do desejo assim o tem no presente. O desejo permanece frente ao incerto, ou seja, o futuro. O desejo que subjaz e persiste no desejo que se realiza na “posse” do objeto amado é o desejo de continuar com o objeto, visto que o amanhã é sempre algo ainda não atingível (e por isto nos falta) e quando o amanhã chega ele não é mais amanhã é presente, presente este que é sempre e constantemente contingente e passageiro.
                Ora, caro leitor, o que isso tudo acima quer dizer é que amar é zelar e cuidar do objeto amado para que se tenha o mesmo em todos os amanhãs. O amor, portanto, busca não somente a “posse” do objeto amado, mas a permanência e a continuidade. E num é exatamente isso o que diz o poeta russo Maiakovski neste seu curto e belo poema?:
                                “Teu corpo
                                eu quero acariciar
                                como um soldado
                                mutilado pela guerra,
                                inútil,
                                sem ninguém,
                                acaricia sua única perna”.

                Amor é um sentimento que nos predispõe a dirigir nosso desejo a um outro, querendo deste outro reciprocidade. É isto: amor quer reciprocidade. Amor é reciprocidade. Enquanto que paixão é revolução, amor é evolução. Não existe amor de fato se não houver intimidade e reciprocidade, e isto só vem com o tempo e com a convivência. Enquanto a paixão idealiza o objeto como perfeito, o amor tolera as imperfeições do objeto. O amor convive com a ambivalência.

         O amor, neste momento para finalizar o presente texto, é um sentimento que se expressa na forma de desejo, desejo pelo outro. E neste movimento que nos conduz em relação a outro alguém, e mais ainda que cimentiza as próprias relações humanas, ele tem fundamental função na vida psíquica. Este sentimento (inicialmente  de ser amado, posteriormente amar), em sua dupla face, é a experiência que constroe o Eu humano. E como meu olhar sobre o assunto é um olhar impregnadamente clínico, remeto o leitor ao texto “Do Amor e da Dor: Representações Sociais Sobre o Amor e o Sofrimento Psíquico” (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-166X2005000100009&script=sci_arttext).


Joaquim Cesário de Mello

Um comentário:

R. Lima disse...

Por increça que parível... Agora entendi!!!