quarta-feira, 15 de março de 2017

DIÁRIO DE AULA: AMOR

SOBRE O AMOR:
PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES


       Freud já no início do século XX dizia que a escolha do objeto amoroso na vida adulta parte em parte dos primeiros objetos amorosos da infância. Segundo a visão freudiana um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais: ele mesmo e a mãe.
     Creio que não se é preciso ter minimamente qualquer conhecimento de Psicologia para se reconhecer que primeira experiência amorosa do ser humano é com os pais, mais precisamente com a mãe ou quem ocupe o lugar da função materna.

       Ninguém nasce amando. Os afetos inatos ou primários são a ansiedade, o medo e a raiva. Afetos secundários – chamados pelos americanos de “afetos sociais”, visto serem desenvolvidos através de experiências interpessoais – são ciúme, pudor, vergonha, culpa, gratidão e amor, entre outros. São emoções complexas construídas sob o contato com os outros e a cultura, e que têm como base as emoções primárias. Nossa primeira escola afetiva é a infância e é de lá que trazemos muito de nossa bagagem emocional à vida adulta.

                O ser humano nasce sem ainda conhecer o mundo que o circunda e muito menos as pessoas que nele habitam. A mente humana primariamente é solitária, isto é, vazio de pessoas. A mente rudimentar é, portanto, anobjetal e amúndica, sem qualquer noção da existência de qualquer coisa que não seja ela mesma. Sabemos que isto é uma pura ilusão da mente que originariamente continua funcionando fora do útero materno como se fetal ainda fosse. Como bem descreve Margaret Mahler, o nascimento psicológico vem depois do nascimento biológico. No início da existência humana além do útero a noção de Eu é tão somente um potencial a se realizar. E o Eu nasce, posteriormente ao nascimento biológico, através da relação com o ambiente cuidador. 

   O bebê vai gradualmente descobrindo-se dependente de alguém. É como se o psiquismo fosse aos poucos se dando conta de que não é uma solidão existencial. A mente descobre a mãe, ou mais precisamente seu primeiro objeto, seu primeiro não-eu.

    É através dos cuidados maternos, no interjogo das gratificações e frustrações, que surge o objeto externo frente aos olhos infantis. É a mãe quem o sustenta, é a mãe quem o alimenta, é a mãe quem o protege, é a mãe quem o agasalha, é a mãe quem atende suas mínimas necessidades, é a mãe...
       É com este objeto materno que o ser humano toma contato e desenvolve seus primeiros afetos secundários. Decididamente, a mãe é o primeiro objeto para onde a energia psíquica e atenção do bebê se dirige. A mãe é o objeto que satisfaz, ou frustra, nossos mais íntimos desejos de então.

         No principiar da vida é da natureza psíquica humana ser narcísica. Narcisisticamente nos “achamos” ou nos sentimos TUDO. Pensamos (e aqui o pensamento ainda não é linguístico ou simbólico, nem regido por qualquer Princípio de Realidade, mas sim pelo Princípio do Prazer, um pensar primitivo e sensório-motor) que somos AUTO SUFICIENTES, ONIPOTENTES, COMPLETOS, enfim PERFEITOS. Contudo isto não condiz com a realidade, pois na verdade um bebê humano é DEPENDENTE ABSOLUTO, IMPOTENTE e frágil frente à satisfação de suas próprias necessidades, INCOMPLETO, enfim IMPERFEITO. Eis aí nossa primeira adaptação psíquica, que conjuga-se ao se ajustar a um mundo extrauterino, nosso primeiro e fundamental conflito entre o Princípio de Prazer e o Princípio de Realidade. Caso o bebê não venha ao mundo com nenhum “defeito de fábrica” a realidade sempre vence, ao menos em grande parte.

Resultado de imagem para SIMBIOSE, MÃE BEBE                O descobrir-se dependente, vulnerável, incompleto e imperfeito não deve ser uma tarefa mental fácil ao psiquismo ainda em formação. Aos poucos vai se desvanecendo as ilusões narcísicas, e a realidade, o mundo, a mãe e os outros vão tomando forma e contorno no campo perceptivo e sensível do aparelho psíquico. Mas a mente ainda vai lutar para manter a ilusão narcísica de onipotência, completude e plenitude. Descoberta a mãe, e sua dependência em relação a esta, a mente que antes se “achava” TUDO cede espaço à mãe ilusoriamente fálica, isto é, se antes o psiquismo de um bebê se considerava TUDO, agora – reconhecida a existência do objeto cuidador – ele é TUDO para a mãe.   

        Mais um vez nossa mente nos engana, ilude-se. Embora possa ser a criança a coisa mais importante da vida de uma mãe, ela não é TUDO para a mãe. Saudavelmente mesmo que um filho represente a realização de muitos dos desejos maternos, o filho não é a realização de todos os desejos maternos. Estamos, pois, no âmbito da simbiose.




       Acima retratamos a capa do livro “O Nascimento Psicológico da Criança”, de Margaret Mahler. Reporto, pois, o leitor àquele livro, bem como "O Processo de Separação-Individuação", publicado no Brasil pela ARTMED, tempo em que me utilizarei um pouco de suas ideias e construtos teóricos.

                Mahler chama os anos iniciais de vida de ‘Processo de Separação-Individuação”, que são anos determinantes na estruturação psíquica do indivíduo. Vamos resumir alguns conceitos básicos de sua compreensão e que nos dão luz a esta área do estudo psicológico chamada de ENDOPSIQUISMO:


FASE
FAIXA ETÁRIA
CARACTERÍSTICAS
AUTISMO NORMAL
Primeiras 4 semanas
Inexistência de percepção de objeto
Ausência de noção de EU
SIMBIOSE NORMAL
¾ semanas a 4/5 meses
Percepção rudimentar do Objeto
Ainda não há senso de individualidade
Bebê e mãe são um só, como se existisse uma barreira entre o par e o resto do mundo
SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO
5 meses a 24 meses
Desenvolvimento de limites e diferenciação bebê-mãe
Desenvolvimento do senso de identidade
Consolidação do EGO
Desenvolvimento de habilidades cognitivas
Saída da “concha simbiótica” com abertura para conexões humanas
                 Sugeriria, também, a leitura do seguinte artigo: “OS PRIMÓRDIOS DA CONSTRUÇÃO DO PRÓPRIO NO CONTEXTO DA INTERAÇÃO MÃE-BEBÊ”, de Bárbara Figueiredo, através do link http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4230/1/Os%20prim%C3%B3rdios%20do%20pr%C3%B3prio%20%282003%29.pdf.


                  Creio que temos agora algumas ideias de como funciona a mente em seus primórdios e que muito nos auxiliará na compreensão da dinâmica tanto da paixão quanto do amor, assunto este que continuaremos no próximo post-aula a ser publicado amanhã.

Joaquim Cesário de Mello

2 comentários:

Jurema Lisboa disse...

Muito prazeroso acompanhar suas aulas.

gdsf disse...

Excelente teacher.