domingo, 29 de maio de 2016

Mais Uma...

O recente ocorrido com a modelo Ana Hickmann traz com frequência a mesma demanda de perguntas e de temores: se o agente do ato  era mentalmente são, e se, sendo insano -  ou “louco” - , esse tipo de insanidade  levaria com mais frequência a atos violentos. Não me aprofundei  nem me aprofundarei neste episódio específico, mas posso afirmar  que foi um ato criminoso passional e, crimes passionais, não nos faltam no dia-a-dia, no entanto, quando, como nesse caso, ocorrem dentro da perspectiva delirante, são mais midiáticos.  O que dá  fama é o aspecto bizarro do acontecimento -  o bizarro é, sem dúvida, mais noticioso. Em cima dessas bizarrices surgem os preconceitos ou as caricaturas dos “loucos” desvairados. Aqui, cabe uma reflexão: a proximidade entre as palavras loucura e paixão deixa os seus estudiosos a arrancar cabelos, pois como bem afirmou Blaise Pascal, “o amor tem razões que a própria razão desconhece”. Pois, por que tentamos, infrutiferamente,  encontrar essa racionalidade em território tao movediço? talvez, as teorias do amor sejam mais uma dessas ilusões necessárias.

Por muito tempo se pensou a loucura como fruto da irracionalidade; de um lado estavam as mentes “sãs” ou racionais  e, do outro, os sujeitos insanos irracionais. Contudo, se partirmos da ideia de indivíduo  “normal” como plenamente racional, chegaremos a um  sujeito inexistente e impossível - diria até desagradável - e, essa simplória conclusão, nos levaria a famosa frase de Caetano Veloso, que, “de perto ninguém é normal”. Se não existem parâmetros seguros de normalidade, se somos uma aldeia habitada pela irascível irracionalidade, como funcionaria, enfim,  a mente dos loucos. Respondo:  diferente, mas não tão diferente  da alma dos pretensiosos normais. Tudo que se sabe a respeito dos quadros de psicose é ainda superficial, assim como tudo que se refere ao psiquismo supostamente normal.

Embora que aqui não vamos dar destaque,  não  devemos  desmerecer as importantes teorias neuroquímicas e neuropsiquiátricas que, do mesmo modo que as hipóteses psíquicas, tem importantes esboços  teóricos  da mente humana.   Vejamos alguns acontecimentos:  Há cerca de vinte anos, uma conhecida atriz brasileira anunciava seu casamento com já o consagrado ator George Clooney, chegou, inclusive, a esmiuçar os detalhes da cerimônia em programa de televisão.   Dias depois, talvez meses, o equívoco se revelaria, Clooney sequer havia conhecido essa “senhora” e estranhara ideia tão estapafúrdia. Anos antes, em 1993, um psicanalista  seria assassinado por sua paciente que acreditava estabelecer relações íntimas de forma telepática e, ainda, contra a sua vontade. Na mesma época,  o namorado também de uma celebridade cometeu suicídio, por acreditar que sua mulher teria sido infundadamente  infiel e se envolvera com vários parceiros de profissão. Sob a alegação de que "o mundo é sujo" comete o ato na frente da atriz. Todos esses casos envolvem paixão e, eventualmente, ideação delirante mas nem sempre são considerados "loucos de carteirinha", alguns nunca se trataram ou sequer tiveram alguma consulta com especialista, e mais uma vez, ganharam fama por conta da bizarrice do ato. 

 O psiquiatra  Gaëtan Gatian de Clérambault  em meados do século XX sintetizou um curioso quadro de comportamento delirante, do qual nomeou como delírio erotomaníaco - posteriormente chamado de síndrome de Clérambault. Nesse quadro, o sujeito, em sua maioria do gênero feminino,  se via envolvido amorosa e “secretamente” com pessoas de destaque ou de evidência públicas. Essa relação segue os mesmos padrões superlativos da paixão  - não tão diferente dos apaixonados normais, mais intensa, contudo. As únicas e marcantes diferenças estão no fato de que é uma construção inteiramente, e, toma o cotidiano do seu acometido, como se tudo que ocorresse no seu entorno, fossem sinais, senhas ou  codificações que apontam para a essa bizarra relação passional. Na maioria das vezes, as pessoas acometidas por síndrome erotomaníaca são pessoas solitárias e convivem, ou conviviam,  de forma reservada com sua paixão proibida. Falei conviviam, porque, hoje, em se tratando da realidade de redes sociais, o espaço de reserva, o espaço privado, vem se reduzindo e se submetendo as exposições públicas. No passado o alvo da paixão poderia receber um ou outro telegrama, ou correspondência de correiros anônimas, hoje  é  importunado a toda hora, por todo tipo de pessoa, inclusive, por esses reservados delirantes - Uso a palavra "reservado" porque, nesse caso, corresponde a maioria.  

O mundo delirante não tem o mesmo compromisso com a realidade que o não delirante. Se vivemos conflitos, sofremos com nossas renúncias, nossas feridas narcísicas, com o nosso orgulho, e na síntese de suas soluções,  o  pensamento delirante suplanta esses desacordos,   reportando ao mundo da infância de todos nós. Cria-se, como naquele tempo, tramas  de ideias sobrevaloradas que só o tempo e a experiência vão dilapidando. Se quando criança acreditamos que um homem ou uma mulher adultos, sejam eles professores, parentes ou amigos dos mais velhos, correspondiam a nossa admiração com paixão,  por muito tempo esperneamos ao imaginar que toda essa história partiu única e exclusivamente de nosso desejo e de nossas fantasias - no pensamento delirante, a fantasia ganha o “status” de realidade e, mais, sustentam provisoriamente parte da vida mental. Frente à desgraça ou a ruína de cada um, o delirante não encontra escoras que suportem seus impasses pessoais, a sustentação se dá pela recusa da realidade. O amor delirante tenta dar um novo sentido, embora que com muito sofrimento, as questões vivenciais do seus acometidos - um bom exemplo disso está no formidável texto de Gogól, na Rússia do século XIX," O Diário de um Louco". contudo, não precisamos ir tao longe no tempo nem no espaço. Folheando o livro de poemas Meio-dia Eterno do escritor pernambucano Austro-Costa, deparo-me com vestígios de Clérambault no seguinte soneto:

Mais Uma...

A que me escreve agora é Margarida
Margarida Isuré... Quem será ela?
Grafologicamente, o que revela
é que vai terminar doida varrida

É um caso grave e triste, o "caso" dela.
Lunática perfeita... Convencida 
de que só ela é o meu amor, na vida...
"Tua serei, ou morrerei donzela!;;;"

A letra dela, a da segunda carta
é a mesma letra da que assina Marta...
Maluquice? Freudismo? Ou brincadeira?

Sei lá... coisas, talvez de vitalina,
de solteirona que quer ser menina
e que ainda acaba na Tamarineira...

MARCOS CREDER


quarta-feira, 25 de maio de 2016

DIÁRIO DE AULA: PARENTALIDADE


PARENTALIDADE: EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO DOS FILHOS


    Qual a melhor forma de educar os filhos? Esta pergunta é antiga e muito já se tem escrito sobre isto. Em meados dos anos 1960 Diana Baumrind (psicóloga e pesquisadora americana nascida em 1927 e que dedicou sua vida ao estudo da temática ora em pauta) desenvolveu o modelo teórico sobre os tipos de controle parental. Seu iniciante trabalho foi um marco no campo de estudo sobre a educação pais e filhos, e inspirou inúmeros trabalhos sobre estilos parentais. Baumrind propõe três tipos de controle (estilo) parental, a saber: autoritativo, autoritário e permissivo. Os efeitos de tais estilos parentais sobre a educação das crianças - suas pesquisas mostraram - resultam em diferentes graus de competência social (maior assertividade, maior maturidade, auto-regulação, independência, autonomia, conduta empreendedora e responsabilidade social).
     Pais autoritativos incentivam o diálogo com seus filhos, direcionam as atividades das crianças de maneira orientada e racional, colocando sua visão de adulto sem com isto restringir a criança. Já os pais autoritários estimam a obediência cega como virtude, modelando e controlando rígida e punitivamente a criança. Os pais permissivos, por sua vez, são aqueles pais que se comportam de maneira não-punitiva e receptivos aos desejos e ações das crianças sem se colocarem como modelo e agente responsável em direcionar o comportamento infantil.
                O estilo parental permissivo é desmembrado em dois: o indulgente e o negligente. O indulgente é caracterizado pelo estilo carinhoso, porém não exigente em relação aos deveres e normas. Já o negligente é aquele pai que não se envolve no exercício das funções parentais (desresponsabilização) e mantém apenas o atendimento das mínimas necessidades básicas.
                Pelo acima exposto, com base nas duas dimensões da parentalidade (responsividade e exigência), pode-se observar que pais autoritários são exigentes, mas não responsivos; enquanto que os pais permissivos indulgentes são bastante responsivos, porém não exigentes; bem como os permissivos negligentes nem são responsivos nem exigentes. Os pais autoritativos, contudo, são exigentes e responsivos, há uma reciprocidade, os filhos devem responder às exigências dos pais, mas estes também aceitam a responsabilidade de responderem, o quanto possível, aos pontos de vista e razoáveis exigências dos filhos.
                Pesquisas reforçam o acima exposto, tais como as de Lambord e colaborados, que em 1991 pesquisaram 4000 jovens adolescentes, com o seguinte resultado: adolescentes que
perceberam seus pais como autoritativos mostraram mais aspectos positivos de desenvolvimento (alto índice de competência psicológica e baixo índice de disfunção comportamental e psicológica), enquanto os que perceberam seus pais como negligentes mostraram aspectos negativos. Já os adolescentes que viram seus pais como autoritários ou como indulgentes apresentaram características tanto positivas quanto negativas, sendo os negativos, entre outros, retração social, depressão e ansiedade, com pouca habilidade do traquejo e manejo social,

                Trabalhos e pesquisas outras também apontam que filhos de pais autoritativos apresentam melhor desempenho escolar, maior autoestima e autoconfiança, e instrumentalmente mais socialmente competentes.  Quem aqui se interessar por conhecer algumas dessas pesquisas, sugiro acessar o seguinte link: http://www.scielo.br/pdf/prc/v17n3/a05v17n3.pdf

Vide abaixo resumo sobre o assunto

ESTILOS PARENTAIS: RESUMO ( * )

domingo, 22 de maio de 2016

POEMA DE AMOR AO CONTRÁRIO





Não quero te ver envelhecer ao meu lado
não te escolhi pra te perder
prefiro a permanência do breve instante
que a longevidade prometida das minhas ausências

Não quero que me vejas envelhecer ao teu lado
nem que chores em meu túmulo molhado
fiquemos juntos pois neste retrato
e que o hoje seja sempre sem nenhum amanhã

De que adianta filhos e casa
se tudo ao futuro deixaremos
que nos agarremos pois um ao outro no presente
este imenso inchaço infértil de tantas transitoriedades

Não te quero nem me quero
em lembranças e memórias
desejo-te agora como és e sempre serás
plena suave e morna assim
como assim é toda e qualquer eternidade.

Joaquim Cesário de Mello

quinta-feira, 19 de maio de 2016

TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE

Os transtornos de personalidade, segundo o DSM, podem ser subdivididos em 3 grupamentos, a saber:

GRUPO A (esquisitos, excêntricos)

Esquizotípico

Esquizóide


Paranóide

GRUPO B (dramáticos, imprevisíveis, irregulares)

Narcisista

Histriônico
Borderline
Antissocial

GRUPO C (ansiosos, receosos)

Esquiva
Dependente


Obsessivo-Compulsiva


quarta-feira, 18 de maio de 2016

DIÁRIO DE AULA: PARENTALIZAÇÃO

O TORNAR-SE PAI E MÃE

Tornar-se pai e/ou mãe é acima de tudo um processo psicoafetuvo. A parentalização é algo que vai além do biológico, que se inicia pela transmissão integeracional, isto é, um trabalho psíquico que consiste em elaborar o que herdamos dos nossos pais e que transmitimos aos nossos filhos a partir da vivência do papel de ser mãe/pai. Não é uma herança genética, mas sim uma herança psicológica. É, pois, um processo complexo consciente e inconsciente.
O psiquiatra e psicanalista americano Daniel Stern, em seu livro A Constelação da Maternidade (Artes Médicas), destaca a dimensão simbólica do nascimento de um filho. Diz Stern que o narcer de um filho na vida dos pais provoca uma neoformação em seus psiquismos e que a inclusão do bebê na mente destes produz mudanças profundas.


O lugar do filho no âmbito da família e do desejo dos pais são temas centrais no estudo da parentalidade. Toda uma metamorfose de sucede. Ninguém está de todo preparado para ser pai/mãe especificamente de um determinado bebê. E é neste sentido que Serge Lebovici entende a parentalização como um processo em que tanto o homem quanto a mulher aprendem a ler as necessidades do bebê por meio dos gestos. Pode-se dizer que ser pai/mãe é uma psico-aprendizagem. O trabalho psíquico começa, pois, pela criança imaginária (idealizada). Quando o filho nasce os pais necessitam passar por uma mudança psicológica que é a de lidar com o filho real versus o filho idealizado. Quanto mais conflitivo for essa relação (real x ideal) maior será a frustração dos pais. O filho real, por sua vez, provoca uma desidealização no imaginário dos pais. Ao longo de toda a infância o embate entre o filho idealizado e o filho real, além das frustrações normais do processo, pode gerar níveis de sofrimentos acima de um mínimo tolerável a ponto de gerar - dizem os estudiosos do campo - distúrbio na relação bebê-pais que, por sua vez, podem gerar impedimentos ou dificuldades no processo de desenvolvimento da criança.


A maternidade introduz uma dialética entre o bebê interno (imaginado) e o bebê externo (real). O bebê real não é um depósito passivo das projeções parentais e suas respostas irão modelar uma parentalidade que não é a exatamente idealizada inicialmente pelos pais. É neste sentido, portanto, que se poder afirmar ser o bebê que irá os pais a serem pais dele.
A respeito do assunto sugiro aprofundá-lo em:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382010000200010

http://www.scielo.br/pdf/epsic/v9n3/a07v09n3.pdf

segunda-feira, 16 de maio de 2016

DIÁRIO DE AULA

FUNÇÃO MATERNA
              Bebê sozinho não existe, já afirmava Winnicott. Com essas palavras ele enfatizava que não poderia haver bebê sem mãe, afinal o ser humano recém-nascido é completamente desaparelhado à sobrevivência, necessitando absolutamente de um terceiro que lhe cuide e atenda às suas necessidades, inclusive as mais primárias e elementares. A pessoa que assim o faz é aquela que exerce não somente o papel materno, mas a função materna. Para fins de simplificação, chamemos essa pessoa de MÃE.
                A função materna não apenas possibilita a sobrevivência do lactante, mas igualmente é essencial para a organização psíquica da criança pequena em formação. É a partir dessa relação primária que o sujeito humano partirá, posteriormente, para se lançar no mundo. Notável, pois, a importância fundamental da mãe nos primeiros instantes constitutivos do funcionamento mental e sua influência vida a fora. 
              O melhor exercício materno (mãe suficientemente boa) é aquele em que a mãe saber dosar o amor que ele sente pelo filho com as necessidades deste ter seus limites, bem como ajustar e harmonizar seus desejos de proteger o filho pequeno e de libertá-lo gradualmente à medida que ele cresce rumo à independência e à autonomia. Podemos até dizer que o desenvolvimento humano é uma caminhar da excessiva proximidade com a mãe e o desligar-se desta. Separar-se da mãe não significa abandonar de fato a mãe, mas sim psicologicamente não mais necessitar tanto dela.
                A função materna é uma função de holding (vide conceito winnicottiano), que corresponde ao amparo que se dá ao bebê, tanto fisicamente quanto psicologicamente. O dar o colo é mais do que amparar a criança junto ao seio. É proteger, como uma espécie de para-raios, a mente vulnerável e rudimentar infantil dos inúmeros estímulos geradores de ansiedade e inquietação. 
          A relação matricial humana (mãe-filho) é, ou deveria ser, um ambiente psicologicamente acolhedor para o bebê. Mas, para que tal aconteça, é necessário uma mãe emocionalmente equilibrada e estável. Uma mãe não comprometida narcisicamente, isto é, que não necessite de seu filho para preservar sua autoestima. Uma mãe comprometida pela depressão, por exemplo, gerará desequilíbrio a esta relação materna-filial e não conseguirá corresponder ao seu papel de ambiente acolhedor. Assim ocorrendo não teríamos somente prejuízos marcantes ao desenvolvimento psicológico infantil, mas também neurofisiológico. Ambos déficits tendem a gerar repercussões a médio e a longo prazo. Vide artigo EFEITOS DA DEPRESSÃO MATERNA NO DESENVOLVIMENTO NEUROBIOLÓGICO E PSICOLÓGICO DA CRIANÇA, de Maria da Graça Motta, Aldo Lucion e Gisele Manfro: http://www.scielo.br/pdf/rprs/v27n2/v27n2a07.pdf
A reciprocidade entre mãe e filho (bebê) é fundamental e relevante. À guiza de exemplificação veja abaixo a experimentação que o psicólogo americano Edward Tronick denomina de still face (rosto impassível):



Os meses e anos iniciais de vida do ser humano compõem um período sensível e crítico ao desenvolvimento do mesmo. É neste período inicial que iremos adquirir nossas primeiras informações afetivas, cognitivas e sociais. Como descreve o supramencionado artigo “em humanos, a privação materna pode ocorrer mesmo sem a intenção da mãe de prejudicar o bebê, como, por exemplo, em decorrência da depressão pós-parto (DPP). A DPP pode favorecer a ocorrência tanto de abuso quanto de negligência principalmente quando  os  sintomas depressivos forem persistentes. As mães deprimidas mais frequentemente mantêm um padrão de comportamento intrusivo ou retirado (ausente emocionalmente) , danoso para a criança”.
             Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, muito contribuiu para o entendimento da dinâmica relacional mãe e filho. Dentro da perspectiva winnicottiana todo ser humano traz consigo um inato potencial ao crescimento e muito dependerá do ambiente que poderá ser facilitador ou dificultador ao amadurecimento. Possíveis dificuldades da mãe (que para um recém-nascido é o ambiente) geram atrapalhos ao processo de amadurecimento rumo a futura autonomia. O olhar psicológico da mãe é fundamental e uma mãe suficientemente boa olha seu filho como algo diferente dela (em termos narcisistas, é claro).

                Ainda dentro da perspectiva winnicottiana somos inicialmente uma não-integração (o ego ainda não está integrado). Nesta não-integração necessitará de uma mãe/ambiente que funcione como continente às suas angústias e ansiedades várias. As respostas empáticas geradas pela mãe, segundo Winnicott, muito dependerá de sua condição em exercer uma “preocupação materna primária” (vida conceito). E é a partir dessa capacidade de a mãe se identificar com seu filho que ela também poderá exercer com maior eficiência o holding, principalmente devido a sua maior sensibilidade para com as demandas do infante.
       Antes de uma criança nascer ela já existe. Existe na mente consciente e/ou inconsciente dos pais. Antes de uma mãe vir a ser mãe, ela foi primeiramente um filho(a). Embora não nos lembremos nosso psiquismo e nosso cérebro registram a imagem (imago) do bebê que um dia fomos, assim como registra a imagem (imago) da mãe que tivemos e da relação que um dia tivemos entre ela e nós. E não somente a vaga ideia (registro mnêmico) do filho que já fomos e da mãe que já tivemos, mas também da mãe e do filho idealizados. Ferida nascisistas na infância da mãe de hoje ressoam por detrás e além dos sentimentos e gestos maternos.
                Evidente, mais uma vez, que não conseguiríamos em um curto espaço de um blog explicitar a profundidade de uma relação tão primordial como esta. Alguns textos complementares podem nos ajudar, tais como:

- UMA CRIANÇA EM BUSCA DE UMA JANELA: FUNÇÃO MATERNA E TRAUMA (http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S1415-71282006000100003&script=sci_arttext)

- O DISCURSO PARENTAL E SUA RELAÇÃO COM A INSCRIÇÃO DA CRIANÇA NO UNIVERSO SIMBÓLICO DOS PAIS(http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98932004000300006&script=sci_arttext)

- AMOR E ÓDIO – A AMBIVALÊNCIA DA MÃE, editora Companhia de Freud.

- A SOMBRA DA MÃE, editora Livraria Martins Fontes.
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PS: e tudo que você possa ter acesso dentro da perspectiva winnicottiana. Pesquisar, pois...
Vide vídeo abaixo:



Joaquim Cesário de  Mello





domingo, 15 de maio de 2016

Oscar Wilde e Samba-canção

Depois de muitos anos,  alimentado por infundado preconceito, passei a ser um leitor assíduo de biografias. Qual seria a razão desse preconceito? Achava, entre outras coisas, que as biografias eram  um falso relato da vida de uma suposta pessoa que (não) existiu - um retrato sentimental e afetivo mais do biógrafo do que  do biografado. Tem biógrafos, inclusive,  que são tão agradáveis e conhecedor de seu personagem ilustre que, talvez, o próprio biografado não se reconhecesse no seus textos. Há uma modalidade de  biografia escrita pelo próprio biografado, enfim, um tipo de autobiografia, que assim não pode ser inteiramente classificada, por ter elementos de ficção. São  os interessantes “romances de formação”. Por muito tempo achei esse tipo de texto, apesar de inverídico, mais, bem mais, honesto que a escrita confessional. Li alguns.  Há maravilhosos textos de Goethe, Thomas Mann, Proust, Pedro Nava, Roth, autores que fizeram de suas recordações, elementos para um deslize ficcional - fato que dá beleza e  realidade ao texto. Realidade? Sim, realidade… Sou  adepto a certos paradoxos e não posso deixar de me recordar de Oscar Wilde num livro bastante instigante: “A Decadência da Mentira, Um Protesto”. afastando todas as ironias, chacotas e as provocações de Wilde, devo concordar com ele que a verdade é muito mais expressa na ficção do que nos supostos fatos verídicos. Diz Wilde que Platão ou Sócrates ao relatarem  passagens de suas vidas estavam contando verdades, contudo, verdades que não ocorreram.  Segundo esse escritor, os pensadores de nosso tempo contam mentiras que ocorreram - nada mais desagradável que a vida sem arte -  e arte sobretudo é invencionice. Eis o paradoxo. Minha formação em leituras de psicanálise faz concordar com Oscar Wilde. As pessoas trazem seus sofrimentos às sessões terapêuticas sem ter a menor ideia de que estão enganadas, iludidas e de que falam  dando ênfase, apenas, aos seus desejos e versões. Falar sob influência do desejo é criar e/ou mentir, mas nele, no desejo, há verdades. E assim fazem os biógrafos e cronistas, “criam” imaginando que estão narrando fatos verídicos e inquestionáveis.

Desse modo, comecei a admirar as biografias.


Se uma cidade brasileira pudesse ser personalizada numa pessoa biografável essa cidade seria o Rio de Janeiro. Imagino o Rio de Janeiro como uma mulher impulsiva - diriam no passado,  volúvel -  uma cidade inteligente, natural, insone, bela e assimétrica - com predileção pelo madrugada e pelo entardecer. Por que falo tão bem de uma cidade tão geradora de polêmicas - alguns dirão que minto, pois há por lá bandidagem, contravenção, sofrimento, desigualdade, injustiça. Enfim, minto dizendo verdades. E Ruy Castro poderia ser tão mentiroso quanto eu quando escreveu o recém-lançado  livro “A Noite do Meu Bem” , um texto que considero a biografia noturna do Rio de Janeiro. O livro é maravilhoso, cativante, sedutor. Interessante que, mesmo tendo preconceito com o samba-canção, ao ler a sua história, as suas origens, tenho vontade de procurar artistas e melodias daquela época, especialmente dos anos 1950. Achava - talvez ainda ache - o samba-canção uma modalidade musical muito melancólica. Mas a melancolia, por si só, não diz tudo,  tem beleza.  Nesse estilo musical, contudo,  transbordava-se, eventualmente,  de um certo pieguismo. Ruy Castro, convida-me a uma reconsideração  e assim como um bom samba-canção, pede-me "uma nova e boa chance" de ouvi-la novamente. Se eu pensava que a bossa-nova era o mais carioca dos estilos musicais surgidos no Brasil, hoje julgo, que antes, ainda de madrugada, reinava, com boa qualidade, o samba-canção, como se,  para  cantar uma paisagem carioca ao som da bossa-nova, tivéssemos  que  ter despertado de um sonho ruim e descortinado o dia claro que já amanhecera. Considero uma música emblemática que bem representa esse espírito carioca entre a bossa nova e o samba-canção, a música de Dolores Duran e Tom Jobim: Estrada do Sol. Se  o leitor se interessar em conhecê-la, não deverá somente ler os seus versos, deverá escutar a música, as palavras cantadas que formam essa bela canção - deixei abaixo uma versão interpretada por Elis Regina. 

Quem era dolores Duran? uma das rainhas do samba-canção. quem era Tom Jobim. um dos criadores da Bossa nova - se quiser saber mais, leia Ruy Castro. Dessa junção de talentos e de estilos,  surge a canção tão carioca, tão feminina. O livro de Ruy Castro é um primor, um texto que você teme por terminá-lo, uma história que se deixa adormecer e permitir-se sonhar com a biografia de uma cidade. 



Marcos Preder
   

sexta-feira, 13 de maio de 2016

DIÁRIO DE AULA: FILHOS


FRALDAS, NINHO E CHUPETAS:
           A FAMÍLIA NUCLEAR COMPLETA              


        Quem casa quer casa, diz o dito popular. Pois é, casamento parece representar a criação de um novo ninho, uma nova morada, uma nova família nuclear. Epa, perá aí! Mas desde o inicio não dizíamos que família nuclear era aquela constituída de um casal com filho(s)? Também não definimos, para efeito operacional da disciplina, que família era um grupo de pessoas ligadas por laços de parentesco que se incumbe da criação da prole...? Pois é, tá faltando algo. Tá faltando filhos ao casal. Claro que há casais que decidem não ter filhos, ou não podem e não querem adotar. Sim, é verdade. Mas a maioria das pessoas se casam não somente para casarem, mas para construírem eles mesmos suas próprias famílias, incluindo filhos. É como aquele quase mandamento bíblico: crescei e multiplicai-vos. Aliás, não só bíblico, afinal se crescêssemos e não gerássemos filhos não haveria humanidade.


       Vamos, então, abordar a chegada de um filho ao contexto do casal. Onde antes eram dois (díade) agora são três (tríade). Isto se não muda tudo, muda muita coisas, afinal não é a toa que o nascimento dos filhos é uma das etapas fundamentais do ciclo de vida familiar. E não custa nada lembrar ao leitor um pouco esquecido que cada fase evolutiva do ciclo familiar de vida é um período de crise (crise normativa), no sentido adaptativo do termo.
     

O nascimento de um filho, e mais ainda do primeiro filho, é um acontecimento significativo no seio do casal e da família ampliada. Todo mundo acrescenta mais um grau de parentesco, ou seja, os cônjuges viram pais, os pais do cônjuges viram avós, os irmão dos cônjuges viram tios, e assim por diante.
        Para muitos a chegada do rebento é um momento maravilhoso, mas é igualmente um momento tumultuado em grau maior ou menor, dependendo das circunstâncias e do casal. Por mais que os futuros pais se preparem para a chegada do herdeiro, nunca nenhum adulto está plenamente preparado para as tarefas e funções que a progenitura nos traz. É necessário um tempo maturativo para que os membros do casal aprendam a lidar melhor com as novas competências. Engravidar e parir não acaba com a boa vida do casal, mas modifica radicalmente a vida antes vivida sem filhos. Digamos que não engravidamos e parimos apenas prole ou filhos, mas também uma nova forma de se viver.
        Maternidade e paternidade são vividas de maneiras diferentes. O pai, o homem do casal, frequentemente sente-se como que excluído de uma relação de maior intimidade e proximidade que é, inclusive, a maior relação de intimidade e proximidade que o ser humano pode ter: mãe-bebê. Filhos não só nascem, mas provocam mudanças na vida e na personalidade dos pais. Como pais eles terão a oportunidade de reverter suas próprias experiências de filhos, só que agora assumindo o outro lado da mesa, isto é, sendo eles (que um dia foram crianças, filhos) os pais dessa nova história que começa. Mas será que começa? Ou será que é uma continuação de uma história antecedente?

                O que sabemos é que na chegada de um filho tem ele, de início, três destinos:
                - há espaço afetivo para ele no seio do casal;
                - não há espaço afetivo para ele no seio do casal;
                - ele vem ocupar um espaço afetivo vazio no casal ou em um dos cônjuges.
                Enquanto na primeira hipótese há clara aceitação do filho e da paternidade e na segunda rejeição, a terceira é mais sutil e camufla a rejeição. Uma proximidade excessiva do casal ou de um dos cônjuges com o filho (superproteção, por exemplo), pode revelar que este filho vem para preencher um vácuo na vida dos adultos.
                Seja como for a chegada de uma criança representa tanto uma mudança social quanto psicológica no casal. O nascimento é cheio de mistérios, medos e fantasias. Após o parto o primeiro cenário que se tem é frequentemente é uma forte aproximidade recém-nascido e mãe (preocupação materna primária) e, de certo modo, uma exclusão desta simbiose materna-filial da figura do pai. Alguns pais têm que lutar por essa sensação de perda e exclusão, até que a família se acomode às mudança e vá encontrando um lugar para ele. A díade do casal muda seu eixo para uma díade mãe-filho, e finalmente transforma-se em uma tríade psicologicamente falando.
          A respeito do acima exposto, vide PATERNIDADE: VIVÊNCIA DO PRIMEIRO FILHO E MUDANÇAS FAMILIARES, de Márcia Jager e Cristiane Bottoli: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-36872011000100011&script=sci_arttext.
                Resumamos a questão:
                - a chegada do primeiro filho geralmente mobiliza mais do que a chegada dos seguintes;
                - inaugura-se uma nova família (nuclear);
                - há uma mudança de status e de vida no casal;
                - o casal avança para uma nova etapa desenvolvimental (avança uma geração);
                - quem antes foi cuidado agora passa a ser cuidador;
                - as famílias de origem também acompanham o processo de transformação de novos papéis e funções familiares;
                - é preciso abrir um espaço físico e emocional para a chegada do filho;
                - reestrutura-se a base da família e os limites com as famílias de origem;
                - é necessário abrir espaço para as díades mãe-filho, pai-filho, marido-mulher;
                - cabe aos pais dos pais (agora avós) passarem a uma posição secundária, no sentido de permitir que seus filhos (agora pais) assumam e exercitem seus papéis e autoridade de pais;
                - não existe manual que ensine o casal a serem pais. Cada pai tem de aprender com seu filho a ser pai/mãe.

LEITURAS SUGERIDAS:

- GRAVIDEZ DO PRIMEIRO FILHO: PAPÉIS SEXUAIS, AJUSTAMENTO CONJUGAL E EMOCIONAL (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722008000200002)

- A TRANSIÇÃO PARA A PATERNIDADE: DA GESTAÇÃO AO SEGUNDO MÊS DE VIDA DO BEBÊ (http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S1678-51772009000200008&script=sci_arttext)

- MATERNIDADE E PATERNIDADE: A PARENTALIDADE EM DIVERSOS CONTEXTOS (Editora Casa do Psicólogo)



Joaquim Cesário de Mello