quarta-feira, 27 de abril de 2016

DIÁRIO DE AULA - DIVÓRCIO


              Em latim herdamos a palavra divortium que é derivada de divertêre. Divertêre significa separar-se, razão pela qual divórcio representa separação, no caso a separação conjugal. Embora quem pense em casar não esteja pensando em se separar, a realidade do divórcio é hoje uma significativa presença no cenário brasileiro. O divórcio cada vez mais está se tornando uma possibilidade no ciclo de vida familiar e menos uma acidentalidade.
                Evidente que com o caminhar pela vida ambos os parceiros, ou um deles, sofram transformações ou evoluam com o tempo, às vezes essas mudanças e crescimentos se façam em ritmos diferentes e não complementares. Tal “gap” (hiato) que vai surgindo pode ir levando até mesmo a necessidade de uma separação. Um bom casamento no inicio não é sinônimo de que será bom a vida inteira. Conjugalidades que não mais proporcionam níveis de satisfação geralmente levam a problemas de convívio e desajustes conjugais.
                O divórcio quando acontece é um dos momentos mais críticos à família dentro do contexto do ciclo de vida familiar. Todo o sistema familiar sofre um abalo, algumas vezes de proporções sísmicas. Por mais consensual que um divórcio possa ser, a separação do sistema conjugal traz uma complexidade nova à família como um todo, sendo este, portanto, uma época de adaptação e ajustes.    
                 Com base a partir de mais um texto de Terezinha Fères-Carneiro, SEPARAÇÃO: O DOLOROSO PROCESSO DE DISSOLUÇÃO DA CONJUGALIDADE (http://www.scielo.br/pdf/epsic/v8n3/19958.pdf) vamos tecer agora algumas considerações sobre este importante tema que faz parte de todo e qualquer estudo sofre à família.
                Lembremos da aula (post) passada, quando enfatizamos que no casamento 1 + 1 = 3, ou seja, que o casamento implica a construção de uma nova identidade, além da identidade dos cônjuges. Pois é, quando acontece de haver separação conjugal a identidade conjugal construída vai se desfazendo. É uma desfazimento, ou um luto, com o “morto” vivo, aliás reciprocamente são dois “mortos” vivos. A elaboração do luto pela separação conjugal passa por este “morrer” bilateral.
                O divórcio não representa uma falência da ideia de casamento. Pode representar a falência daquele casamento específico e único, mas não do que se busca nele. Sabemos que o casamento é uma área importante de auto realização social e afetiva, e o término de um casamento não significa o findar do desejo de ser feliz casado. O divórcio não desqualifica em si o casamento, pelo contrário abre espaço para que um casamento, que não mais corresponde às expectativas e exigência, dos cônjuges possa ser deixado para trás e se parta em busca de um outro que as atenda. Por isto cresce também o número de recasamentos.  

                  Várias são as causas que proporcionam o divórcio, mas talvez a mais importante possa ser o desamor. Nenhum relacionamento acaba por nada, e em matéria de amor principalmente. Ambos os parceiros, direta ou indiretamente, tem sua parcela de culpa, seja por ato ou por omissão. Embora o divórcio seja algo que se encontra na esfera do jurídico, as questões subjetivas como sentimento e afetos não fazem parte do Direito de Família. Por isto deixemos as questões jurídicas relacionadas ao divórcio de lado (ou melhor, aos operadores do Direito) e nos debrucemos nos aspectos psicológicos do fato em si.
                Toda separação é sempre um momento de perda e de luto, afinal se dedicou tanto tempo sonhando e projetando no outro e no casamento elementos relacionamos a apego, segurança e felicidade. Para muitos, até, fica evidente o sentimento de desamparo que a perda do casamento enseja. Frustrações e decepções estão no pacote chamado divórcio. 
                     Um longo e doloroso processo de luto necessita ser elaborado, principalmente pelo cônjuge que não tomou a iniciativa da separação. Trata-se de um findar de um projeto de vida até então compartilhado e que ambos investiram. Até o cônjuge que tomou a iniciativa da separação tem também seu luto a elaborar. E estamos aqui a falar também do luto pelos desejos secretos de nossas almas que buscam no outro autoestima, idealização, anseios infantis, bem como demandas mal resolvidas com as figuras parentais.
O luto pelo vínculo antes criado acomete ambos os cônjuges. O que tomou à dianteira (decidiu se separar) começou primeiro e dentro da vigência do casamento. O que foi deixado, por sua vez, se vê em meio a um olho do furacão. O sentimento de ser deixado, ser rejeitado, pode ser avassalador, principalmente junto à ideia de que o outro está bem e feliz sem ele(a). Todo e qualquer vínculo de apego quando “quebrado” gera muita tristeza, raiva, medo e ansiedade. São estes sentimentos, muitos vezes até contraditórios, que necessitam serem elaborados.
                 O luto é trabalho psíquico, cuja tarefa mental o enlutado deve desempenhar. Psicodinamicamente falando o luto envolve a libido e a agressividade que o enlutado deve recolher e redistribuir concreta e simbolicamente. A energia psíquica antes catexizada no objeto interno (representação mental do cônjuge) precisa ser desinvestida para que, por outro lado, possa ser reinvestida em outros objetos, no mundo e na vida. A perda é o início de uma transição (luto) que requer reorganização de vida.
                A primeira etapa é sempre a aceitação da separação. Nos momentos primeiros é bem possível que haja fenômenos psíquicos de negação, mas é pela dor da aceitação que começamos o processo de diminuição e extinção da dor. Superado o choque, inicia-se uma nova etapa que passar por lidar com os sentimentos ambivalentes de amor, tristeza e ódio. Enquanto persistir a raiva, por exemplo, alguma não aceitação reside. Conjugado a isto o enlutado passa a preencher o lugar vazio deixado pelo outro no cotidiano, inclusive assumindo tarefas e funções antes exercidas por este. Desenvolvem-se habilidades que antes não eram utilizadas. Na conciliação dos desejos e lembranças opostas (“fui feliz com quem hoje me fez infeliz”) a fase de reorganização se processa, pois uma nova vida precisa ser vivida. E quando menos se vê a dor da separação e da perda, chega-e o instante em que o dor não dói mais.
                Alguns estudos sobre o tema apontam que para a família supere o luto e volte a se reestruturar em seus padrões usuais de comportamento leva-se um tempo estimado em dois anos no mínimo aproximadamente para que as famílias voltem a estabelecer um funcionamento mais satisfatório. Vale a pena o leitor dá uma pesquisada no assunto, podendo começar com RELAÇÕES FAMILIARES NA SEPARAÇÃO CONJUGAL: CONTRIBUIÇÕES DA MEDIAÇÃO, de Corinna Schabbel (http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-36872005000100002&script=sci_arttext).

Leituras complementares:
http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/p&brev15ferreira.pdf

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382011000100003

http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?artigo_id=9079&n_link=revista_artigos_leitura
                
Joaquim Cesário de Mello          


domingo, 24 de abril de 2016

ALGUMAS LUZES DENTRO DAS TREVAS

A PSICOLOGIA MEDIEVAL






Tenho um fascínio meio sazonal, às vezes até bissexto, pela Idade Média. Lendo o livro O OUTONO DA IDADE MÉDIA, de Johan Huizinga, descobri me perguntando como era a psicologia medieval. Sim não estranhe em falarmos de psicologia antes da Psicologia (a letra maiúscula fronteiriça a psicologia como ciência moderna de suas anteriores). Como ciência a Psicologia se define como estudo do comportamento humano, porém ancestralmente a psicologia se definia como estudo da alma humana, e neste sentido ela se confundia com filosofia e religião. A própria origem do termo psicologia é milenar e nos remete à Grécia Antiga. Sócrates, por exemplo, já dizia que era o ser humano a verdadeira matéria digna de estudo. Mas, deixemos os gregos de lado e pulemos para a Idade Média.
Resultado de imagem para IDADE MÉDIA
 A chamada Idade Média é um longo período histórico europeu que vigorou entre os séculos V e XV. A expressão Média é uma convenção clássica ao se dividir a História como Antiguidade, Média e Moderna. A própria Idade Média, por sua vez, subdividida em Baixa idade Média e Baixa Idade Média. O livro a que faço menção descreve os estertores daquele período histórico.
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A psicologia medieval, como não poderia deixar de ser, era extremamente vinculada a conceitos religiosos. O Cristianismo predominava, aliás, imperava. O Cristianismo era mais do que uma religião, era toda uma síntese sócio cultural de uma época. O poder da Igreja Católica era hegemônico e monopolizador. Natural que o estudo do psiquismo de então fosse um estudo de caráter religioso sobre a alma humana.
Resultado de imagem para ANIMA, ARISTOTELES A psicologia medieval partia da concepção aristotélica de que era um campo de estudo do “ser vivente animado”. Leia-se animado como aquele que tem anima (alma). Era, portanto, o estudo do vivente animado indissociavelmente em comunicação com a Teologia. Em outras palavras, a parte mais nobre do ser humano (principalissimum hominis) era a presença do elemento divino.
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E assim, hoje motivado pelo passado que contribuiu para formar o presente em que vivo, arregacei as mangar e fui à luta, isto é, debrucei-me em meus livros e pesquisei junto aos textos que tenho acesso. Para quê? Simples. É como está escrito no prefácio da primeira edição do livro O OUTONO DA IDADE MÉDIA, em 1919: “a origem do novo é o que geralmente nosso espírito procura no passado. Deseja-se saber como os novos pensamentos e as novas formas de vida, que mais tarde brilharão em toda a sua plenitude, foram despertados”. Captar o conteúdo essencial do que penso e faço, eis a motivação.
   Pensar a Idade Média em termos de ideias é inevitável pensarmos em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Mas existiram, é claro, outros tão importantes como Boaventura de Bagnoregio (São Boaventura), Alain de Libera e Bernardo de Claraval, entre outros. Este último, por exemplo, também conhecido como São Bernardo de Clavaral, elaborou uma psicologia da vontade. Em sua visão teológica entendia ele que o ser humano fora criado para participar da felicidade de Deus. Para atingir ao bem desejado deve o homem assentir ou se afirmar. E nisto, postula São Bernardo, o homem é dotado de liberdade: liberdade para decidir sobre sua perdição ou sua salvação. O que capacita o humano a participar de Deus é, pois, a vontade livre. O homem feito à imagem e semelhança de Deus era refletida no livre-arbítrio.

                Para Santo Agostinho, que assim como Platão entendia o homem cindido entre alma e corpo, a alma não era a sede da razão, mas uma manifestação de deus no interior do homem. Como pensador do seu tempo, Santo Agostinho foi um agudo observador do ser humano e fez valiosas considerações sobre os estágios psicológicos do homem. Para ele a criança comunicava sua própria força interna e não necessariamente a vontade ensinada dos pais. Conhecer (introspecção) a si mesmo era seu grande mote e objetivo, afinal, dizia ele, somente a alma poderia conhecer a própria alma. Em sua autobiografia AS CONFISSÕES escreveu que a alma pode facilmente mandar no corpo, sendo sua grande dificuldade mandar e obedecer a si mesma. O conhecimento da vida interior é um conhecimento temporal. O que é eterno vem de Deus.
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  A reflexão de Santo Agostinho sobre o tempo ainda hoje é recorrente. Na divisão do tempo em passado, presente e futuro, diz Agostinho o homem só te capacidade de perceber o tempo no momento que ele ocorre. Não se pode apreender o tempo, pois ele escorre e nos escapa sempre. O passado se afasta initerruptamente, é por excelência o tempo da memória. O presente é o instante da percepção, enquanto que o futuro é o tempo da expectativa, o tempo que ainda não chegou.
Para São Agostinho a alma humana é o habitat das capacidades de compreensão, percepção, memória, sonho, raciocínio e sentimentos. É a sede de todas as potencialidades do espírito humano. E em sua temporalidade térrea e corpórea a alma é um alongamento limitado entre o nascer e o morrer. A imutabilidade da alma e do tempo acha-se na eternidade de Deus. E escreve ele: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”.

Resultado de imagem para HOMEM E O TEMPO   O tempo assim entendido é da essência da mente. O passado que não existe mais só é presente por meio da lembrança e o futuro por meio da esperança. E é aqui que reside o EU humano, ou seja, pela interiorização do tempo na memória. Não haveria, pois, nem EU nem tempo para o humano acaso inexistisse a memória. Por isto não fica difícil hoje compreendermos a importância das ideias agostinianas para a ideia moderna de subjetividade, pois vem dele o conceito de espaço interior.
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                Em SUMA TEOLÓGICA, São Tomás de Aquino defende que o homem é feito da mesma matéria que é feita todas as demais criaturas, assim como em OS PRINCÍPIOS DA NATUREZA afirma que o homem tem sua natureza animal. Ao contrário de Agostinho, Aquino compreendia, de um ponto de vista aristotélico, a interdependência entre corpo e mente. O homem tem, segundo este teólogo, tem o livre-arbítrio para escolher seu comportamento. Em busca da perfeição vive homem a sua existência. Este é a essência humana: a busca pela perfeição, somente encontrada em Deus que é capaz de unir essência e existência.
O papel da razão é enfatizado em São Tomás de Aquino que acreditava que é ela que nos ajudar a interpretar se determinado ato é certo ou errado. Afinal, Aquino também compreendia que o conhecimento humano através da concordância da forma do objeto com a forma da mente. Entra-se aí na ideia da intencionalidade (intentio), isto é, dirigir a mente para. Em outras palavras, a mente se conhece não por sua essência, mas sim por seus atos.
                Estão aí implantadas, desde a Antiguidade passando pelo cristianismo medieval, em sucintas palavras, algumas fundamentais bases para se ter acesso a interioridade da alma, ou mais modernamente falando: a realidade psíquica.

Joaquim Cesário de Mello