sexta-feira, 3 de abril de 2015

DÁRIO DE AULA - ESCOLHA DO OBJETO AMOROSO






           Na infância não escolhemos nossos primeiros objetos amorosos, no sentido de que não escolhemos os pais que tivemos, nem a família em que nascemos. É a partir da puberdade e da adolescência que iniciamos dirigir nossos interesses afetivos-sexuais (libido) para fora do âmbito familiar. Todavia é a infância que muito determina a maneira como iremos amar exogamicamente.
                Nosso primeiro objeto que podemos chamar de amoroso é o objeto cuidador dos nossos principiantes anos de vida, aqui denominado de MÃE. Começamos narcisistas e vamos, passo a passo, percebendo o objeto (mãe) que nos gratifica. A este dirigimos nossa energia psíquica (libido), passando de uma libido de Ego (narcisismo primário) para uma libido de objeto – vide NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, Volume XIV (1914) das obras completas de Freud, pags. 83-119.

                Antes, em 1905, Freud nos brindou com seu clássico texto TRÊS ENSAIOS SOBRE A SEXUALIDADE, onde, ao introduzir a noção de pulsão, estabeleceu uma clara distinção entre objeto e alvo sexual. Objeto = pessoa de onde provém a atração sexual; Alvo = ação impelida pela pulsão. Escreveu Freud (1914), “os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção; isto é no primeiro caso sua mãe ou quem quer que a substitua”.
          A nossa primeira escolha objetal amorosa foi denominada por ele de “escolha objetal anaclítica”, isto é, uma relação de apoio derivada das condições naturais de desamparo, fragilidade e impotência do bebê em ele mesmo atender suas necessidades mais primárias. São tempos mentais idealizantes que levamos pela vida afora, inclusive na vida adulta.
                Vê-se aqui a defesa do presente texto em compreender os relacionamentos amorosos a partir de uma ótica baseada nas raízes inconscientes originadas a partir de nossas famílias de origem. Por este ângulo, ou viés compreensivo, nossas escolhas amorosas adultas têm sempre um quê de infantil, ou seja, repetições de alguns padrões adquiridos na meninice. Sentimentos e desejos infantis, portanto, se misturam aos sentimentos e desejos adultos no momento da escolha do objeto amoroso.
                A paixão – como já foi vista aulas atrás – é um sentimento forte carregado de identificações e idealizações. Não é de todo incompreensível entender a paixão como uma espécie de reedição da experiência ilusória primária de completude da relação bebê-mãe. Busca-se com o outro atingir a perfeição.
Porém, nem toda escolha é paixão. Existe a escolha pelo amor, com mais maturidade, menos idealização, porém jamais isenta de qualquer resquício infantil. Mais uma vez reporto-me à Freud: "É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto da primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa nesse primeiro objeto: posteriormente o tomará apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasião da escolha definitiva. Desprender dos pais a criança torna-se portanto uma obrigação inelutável, sob pena de graves ameaças para a função social do jovem." 
          Vem a adolescência e com ela o desapegar infantil dos pais. A sexualização secundária e a transformação do corpo infantil em um corpo adulto pronto à reprodução, é conjugada pela primeiras grandes paixões juvenis. No progresso da maturação sexual a transferência do amor aos pais para os pares extrafamiliares é uma das maiores mudanças emocionais que sofre o ser humano. O desejo eclode agora fora do lar. Surge o enamoramento. Começamos a conquistar e sermos conquistados. Damos agora nossos primeiros passos na dança do acasalamento. 
          A necessidade que tínhamos de se apegar da primeira infância permanece, pois, adultos ou não, continuamos incompletos, frágeis e vulneráveis. Nosso psiquismo é regido pela raiz primária da busca pelo retorno do momento “mágico” e seguro da mais significativa das relações humanas: mãe-bebê.     

               A ilusão faz parte do psiquismo humano e também se faz presente na escolha amorosa. Busca-se no outro complementariedade, sendo esta uma das principais motivações na hora de escolhermos um cônjuge. A complementariedade vem da crença ilusória de que o cônjuge deve ser alguém com quem nos completamos. Pari passu com a complementariedade temos a similitude, isto é, busca-se no parceiro características e qualidades semelhantes àquelas que possuímos. Diz um dito popular que os opostos se atraem, pode ser até verdade, porém apenas no início, pois o que conserva uma relação são as semelhanças.
                A influência da transgeracionalidade não deve ser descartada, afinal muitos têm os pais e o casamento destes como padrão de referência, tanto para ser seguido, como para ser evitado. A partir da conjugalidade dos progenitores pessoas podem criar um esquema mental de como se relacionar com o outro, seja nos afetos, nos manejos adaptativos e no enfrentamento de conflitos. Sobre tais elementos influenciantes na escolha de um cônjuge, sugere-se a leitura de EM BUSCA DA “CARA-METADE”: MOTIVAÇÕES PARA A ESCOLHA DO CÔNJUGE que pode ser elencado em http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v27n3/10.pdf.


          O objeto do nosso desejo transcende a escolha puramente volitiva. São várias as variáveis que estão em cena. Muitas são as motivações que nos impele a se aproximar de uma outra pessoa como objeto do nosso desejo e amor. Desde a atração física, a identificação, idealização, projeção, carências, faltas ou perdas. A eleição daquele como o nosso objeto de amor passa pelos subterrâneos da alma humana. Há casais que, por exemplo, se formam numa tentativa de os sujeitos envolvidos, ou um deles, solucionar conflitos intrapsíquicos, inclusive de origem infantil com as figuras parentais. Seja como for, o encontro de duas pessoas é mais do que o encontro entre dois indivíduos, é também o encontro entre duas subjetividade, duas biografias, duas famílias. Neste encontro existe espaço psicológico tanto para a repetição quanto para a renovação.
                Que lugar o outro ocupa em nossa mente? Que lugar o outro me designa? Não são respostas fáceis nem rápidas. Mas aqui está a base da compreensão da conjugalidade, conjugalidade esta que vai além das simples aparências.
       Deixo vocês agora, rumo ao próximo texto, abaixo publicado, sem antes indicar mais uma leitura afim: http://www.infocien.org/Interface/Colets/v01n01a05.pdf.
     Boas leituras, estudos, questionamentos e reflexões...


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