domingo, 31 de agosto de 2014

OS CAMINHOS DA VIDA






Quantos quilômetros tem o caminho de uma vida inteira? Incomensurável. Inumerável. Infinito. Tudo isso pelo simples fato de que a estrada da vida não se mede por quilômetros ou metros, sequer centímetros. Se assim fosse poderíamos viver mais de 400 anos e ainda haveria o que caminhar. A trilha pela qual andamos, no curto espaço da eternidade que nos é reservado, só tem seu final ao término de nossa existência. Acaso vivêssemos mais um dia, mais um dia teríamos para andar. O caminho da vida não existe, o que existe é a vida que se vive, do início até seu fim. Trata-se de uma alegoria, de uma metáfora. Ou como versa o poeta espanhol Antonio Machado, "caminhante, não há caminho/faz-se o caminho ao andar".
Prossigamos, pois, com o simbolismo de que a vida é uma estrada e que por ela caminhamos. Somos seres vagueantes a perambular pelo mundo, vasto mundo. São tantos os caminhos do mundo e nenhum sabemos de antemão ou de cor. A jornada é ida, e é longe e distante, muito longe e distante, aonde se pode chegar. Todos os caminhos nos servem - escreve o poeta português Francisco Namora - "em todos serei o ébrio/cabeceando nas esquinas [...] que uma onda vos misture/e vos leve a morrer/numa praia ignorada". É pra lá que vamos: pra'algum lugar. "Qual caminho devo seguir", pergunta Alice. "Depende de onde você quer chegar", diz o gato. "Tanto faz, para onde quer que seja", afirma Alice. E o gato retruca: "Então, tanto faz o caminho que você seguir". E Alice complementa:  "...contanto que eu chegue em algum lugar". "ah, então certamente você chegará lá se você continuar andando bastante", responde o gato. Esta é uma breve passagem do diálogo entre Alice e o gato de Cheshire, em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carrol. O gato está certo, afinal não basta apenas seguir; é necessário saber aonde queremos chegar, pois se não qualquer caminho serve, qualquer caminho dá em qualquer lugar.


No início o indivíduo homem não é nada, ou melhor, não é definível ainda. Só mais adiante, só depois - como prega o existencialismo sartreano - é que ele será alguma coisa e como a si próprio se fizer. A existência precede a essência, isto é, o que vem primeiro é o existir e o estar vivo; posteriormente cada ser humano constrói a estrutura de quem ele é. A escolha e a responsabilidade por suas escolhas, diz o existencialismo filosófico, é inerente à condição humana. Em outras palavras: "o homem inventa o homem".
Mas, podemos mesmo escolher a vida que queremos ter? Podemos decidir quem seremos? Elegemos livremente o caminho por onde trilharemos o andar de nossas vidas? "Ser é escolher-se", afirma Jean Paul Sartre. Todavia também nos lembra o filósofo Ortega Y Gasset que somos o que somos, mas igualmente somos a nossa circunstância. Circunstância e decisão são dois elementos fundamentais de que se compõe a vida humana e o mesmo Gasset reconhece que é "falso dizer que na vida 'decidem as circunstâncias'. Pelo contrário: as circunstância são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter". Leitura inversa tem o escritor da trilogia "O Senhor dos Anéis", J.R.R. Tolkien quando diz que "aquilo que nós mesmo escolhemos é muito pouco: a vida e as circunstâncias fazem quase tudo". Porém, confessa o poeta Nuno Júdice "mas levo comigo tudo/o que recuso. Sinto/colar-se-me às costas/um resto de noite;/e não sei voltar-me/para a frente, onde/amanhece".
Concordo particularmente com o que pensa Ortega Y Gasset, no sentido de que somos hoje uma parte pequena do que podemos ser. Vivemos a vida dentro de uma vida maior que é o mundo e suas circunstâncias. Não podemos ser estranhos ou alheios a ele. É dentro do mundo, desta vida que nos é maior, que habitam o conjunto de nossas possibilidades e o exercício de nossas potencialidades. Há limites, é claro. Nossas escolhas não são assim tão libertas de qualquer interferência. Todavia, nossas escolhas podem nos alforriar de muitas de nossas correntes, grilhões e algemas - afinal se não somos tão livres assim, também não somos tão destinados igualmente. Nosso caminho não está escrito nas estrelas. São nossos passos e nosso caminhar quem o faz, pois a vida possível de uma pessoa não é fado ou sina, é construção - uma construção que construímos a partir do que nos é dado e até imposto. Ou como ainda diz Gasset: "o nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida", adversidade esta que não transforma a fatalidade em pré-determinismo. Se viemos ao mundo sem escolher, a trajetória que nele haveremos de percorrer em muito terá as marcas visíveis de nossas digitais.
Em seu livro "A Condição Humana", Hannah Arendt sustenta que a condição humana diz respeito às formas e maneiras com que o homem encontra para viver ou até mesmo para sobreviver. Observa Arendt que somos seres condicionados tanto pelos nosso atos e pelo que pensamos e sentimos, bem como pelo nosso contexto sócio-histórico-cultural. Para ela a dignidade humana só é realmente conquistada através da vivência da complexidade da vida. Uma pessoa que somente vive sem questionar sua vida e/ou sua existência se equivale a um animal devido ao seu não uso de sua racionalidade reflexiva. E no "teatro da vida" corremos o risco de interpretarmos papéis ao invés de vivermos uma vida real, consequentemente, autorrealizante. 
Há uma conhecida peça teatral de Samuel Beckett, "Esperando Godot", onde dois mendigos esperam a chegada de alguém que eles nunca viram ou conheceram chamado Godot. Passam todo o enredo próximos a uma árvore esquelética de parcas folhas frente a uma estrada deserta. Dialogam, esperam, dialogam, esperam. Nada acontece, Godot nunca aparece. Em seu teatro do absurdo Beckett nos leva a refletir sobre a condição humana, e pensar sobre pessoas que passam toda a sua existência no aguardo da chegada de algo que lhes irá mudar o curso de suas vidas. Vivem alienados na própria espera. Por que, perguntaríamos, eles não vão embora estrada adentro? Porque não podem, responde o autor na fala de um dos personagens. E por que não podem?, insistiríamos em perguntar. Por que estão esperando Godot, complementa o personagem. 
Creio que a liberdade de que tanto falam os existencialistas não tenha a ver com escolher os objetos disponíveis que encontramos nas prateleiras da vida. Liberdade é saber criar o que se quer e conseguir encontrá-lo. A liberdade de escolher seu melhor e adequado caminho passa pela capacidade de inventar seu próprio caminho - e caminhá-lo. Nisto concordo com Sartre que o homem inventa o homem, e assim entendo suas palavras: "o homem, antes de mais nada, é um projeto que se vive subjetivamente". Que não nos acomodemos por medo ou vergonha de dar um primeiro passo. Que não vivamos os caminho dos outros, pois o caminho é sempre único e singular. Que no andejar em nossa estrada possamos encontrar outros andarilhos e caminhantes que nos cruzam ou paralelamente nos margeiem. Porque cada um faz o seu caminho, e nem sempre o caminho mais fácil é o melhor caminho, assim como não é porque a rosa é mais cheirosa do que o repolho que ela seja mais nutritiva do ele. Sim, caminhante, não há caminho: o caminho se faz no caminhar. Pois, como canta Antonio Machado, são nossos passos o caminho, e nada mais.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 24 de agosto de 2014

Daqueles que nos fizeram rir


Há uma história comum entre os ditos populares que escutei, não me recordo quando, e achei bastante curiosa.
Diz que um senhor procurou um médico por se sentir desanimado e sem energia. Na consulta, ainda foi mais minucioso:
“Doutor, sinto um desânimo, uma tristeza profunda, um tédio pelas coisas da vida, não vejo graça em nada. Durmo mal, alimento-me mal, não sinto prazer algum pelo trabalho - apesar de ainda conseguir disfarçar e ninguém perceber. Não tenho vontade de nada, só vontade de chorar. Já cheguei a pensar em desistir da vida..."
O médico, como se tentasse compreendê-lo e, ao mesmo tempo, dar uma solução mais consistente aquele relato depressivo, disse:
"Olha,o senhor me parece uma pessoa saudável, pelo menos clinicamente... Não tem motivos para estar assim, mas percebo que algo não vai bem... o senhor parece-me, depressivo. proponho que tente arejar sua vida e está precisando ter sua alegria de volta. Não pode ficar assim... Levante a cabeça! procure rir, sair, se divertir!" E como se contasse um segredo continuou: " porque  não vai ao cinema assistir uma comédia? Ou melhor, tem um palhaço na cidade fazendo o maior sucesso: o palhaço  Giovanni. dizem que esse sujeito, faz milagres, consegue abrir um sorrisos nos rostos da mais carrancudas das pessoas...
“Doutor, o senhor não está entendendo… Eu sou o palhaço Giovanni." Retrucou o sujeito cabisbaixo.

                                                                       *  *  *

Essa passagem, ou outras com histórias semelhantes, levanta o velho paradoxo entre o cômico e o melancólico que é, eventualmente, rediscutido. São os personagens ambíguos que freqüentam o mundo das artes cênicas - as próprias máscaras  que representam o teatro são um exemplo disso - e do imaginário popular, desde as figuras míticas medievais. Trazem embutido na sua imagem, um suposto contraditório: aqui no caso, aquele que provoca riso, é, alhures, um melancólico contumaz.  A provocação do riso, a disposição para o cômico,  enfim, é um esforço, uma encenação, e,  a alegria parece não fazer parte de sua natureza e é, na verdade, seu grande personagem.

 Falo dessas coisas pensando justamente na morte do ator Robin William, recentemente noticiado na imprensa e nas redes sociais. A pergunta que se faz: o que levaria uma pessoa tão, aparentemente, de bem com vida, com vocação para alegria a se matar? A ingenuidade de nossas perguntas, em geral,  se dirige ao personagem midiático e não ao sujeito Robin William. Nessa ingenuidade ainda se questiona: "ele tinha tudo, riqueza, realizado no trabalho, boa mulher e bons filhos". Por trás desse personagem que nos é inventado,  contudo, escapa um homem bastante diferente, um deprimido, um dependente químico ,um impulsivo, um infeliz - um homem que talvez não fosse tão facilmente reconhecido se tivesse perambulando pela ruas. O suicídio desmascarou o personagem e trouxe de volta a aridez de uma pessoa comum. E a pessoa comum é um passível a todas as dissonâncias da condição de sua vida, incluindo, naturalmente, a capacidade de adoecer psiquicamente.

Vi muitas publicações post mortem  sobre o tema da depressão e suas diversas nuances, sua suposta epidemia, os preconceitos a ela relacionados, o descaso que os outros fazem dela. Vi também estatísticas alarmantes que relacionavam a "maldição" da depressão a um holocausto suicida. Enfim, todas as verdades que precisam ser ditas novamente, porque, se não fizerem assim, se esquecerá em muito pouco tempo. E a verdade mais dolorosa, mais ardilosa é constatar que parte da humanidade se mata.

Émile Durkheim, sociólogo ainda do final do século XIX já dizia de maneira pragmática que apesar de muitos casos de suicídio advirem de um quadro depressivo ou de outros transtornos psíquicos, esse argumento por si só não se basta. No seu entendimento a depender de aspectos culturais e históricos os deprimidos podem tentar mais ou menos contra sua vida. O que estava em jogo eram muitos aspectos intrincados na formação social, na forma em que a sociedade se organizava. Um exemplo emblemático do pensamento de Durkheim era o fato de que, em períodos supostamente onde haveria mais riscos de suicídio, muito pelo contrário, seus índices caiam vertiginosamente. O exemplo clássico era o período de guerra. No seu entendimento a guerra criaria um espírito gregário na sociedade que a protegeria pelo menos temporariamente do ato de se matar. A partir dessa ideia de sociedade gregária/anônima , se pode chegar  a várias hipóteses que justificariam as estatísticas de suicídio, inclusive as atuais. Por exemplo,  os solteiros se matam mais que os casados, os religiosos mais que os ateus, os profissionais liberais e autônomos mais que os empregados, os imigrantes mais que os nativos, desempregados mais que empregados. O que se observa nesse pensamento é que mais um elemento se sobrepõe e se soma  à ideia de transtorno psíquico como causador de suicídio. Na verdade, quando  assistimos a uma notícia dessas, como a morte do ator, temos uma tendência a justificar o ato a um infortúnio momentâneo. No caso de Robin Williams ouvi pessoas falarem que ele se matou porque teve uma proposta de emprego recusada. Algo muito pouco provável para justificar o ato. Esse ato, na verdade, vai muito mais além. Ele está intricado numa constelação de eventos multidimensionais que vão desde elementos históricos/sociais até o cerne do indivíduo e seu subjetivo sofrimento.

É importante lembrar que as noticias que nos chegam, trazem algumas hipóteses, que, ainda assim, são superficiais. A amplidão de um ato dessa natureza aponta para muitas janelas, e entre elas está justamente aquela que tentei abrir: o paradoxo do comediante melancólico ou do suicida que um dia nos fez rir.

Marcos Creder 

domingo, 17 de agosto de 2014

O SAL DA VIDA





O mundo que baniu a poesia é, pois, o mundo do espetáculo. Esta frase não é minha, mas sintetiza muito. Bauman chama estes atuais tempos multicoloridos, vitrínicos, globalizado, rápido e amostrado de "Modernidade Líquida". Liquidez não tem forma, molda-se conforme o recipiente em que se encontra. Liquidez é sinônimo de fluidez, escorrência e facilidade. Remete à abastança, fartura e abundância. O que é fluído flui, escorre entre os dedos, move-se com facilidade, transborda e vaza. Para alguns a modernidade inaugurada por Descartes e pela Revolução Industrial esgotou-se, transformou-se em Pós-Modernidade. Já para Bauman foi a solidez da Modernidade tradicional que transformou-se em líquida, onde tudo é volátil, inclusive as relações humanas. Vive-se hoje, nos dizeres de Michel Lacroix, o culto das emoções fortes, vibrantes, intensas e adrenalínicas. Tudo parece ter ficado tão ligeiro, tão fast, e por isso mesmo tão superficial. Contemporaneamente - afirma Bauman - se diz eu te amo como quem diz bom dia. E qual o lugar da poesia, arte por excelência contemplativa e introspectiva, nos dias que se passam, ou melhor que se escorrem?

Drummond de Andrade não queria ser um poeta de um mundo caduco. Então, onde pode o poeta se agarrar em meios as árvores da floresta da cultura de massa? O poeta Donizete Galvão entende que o poeta é aquele que atravessa as coisas "para melhor absorver-lhes/a duração e o gosto". Mas os sabores hoje se dissolvem com uma rapidez maior que a nossa boca em sorver o próximo gole. Os moinhos de vento, com quem lutava Quixote, são agora moinhos de carnes e mentes. Ou será que existe algo de mais fútil, raso e frívolo que as frases prontas da cultura de facebook? Há espaço para a poesia em meio a instagrans, whatsapps, twiters e menssegers outros desta aldeia global de que tanta preconizava Marshall McLuhan? O geógrafo Milton Santos reclamava que a fábula de um mundo sem fronteiras promove a pseudo-igualdade de um modo único de vivência que por detrás oculta um globaritarismo que, por meio tecnológicos, transforma-nos, sem apercebermos, em autômatos cidadãos globais. 


Passamos a depender de máquinas e, apenas enxergando imagens e o ligeiro das coisas, coisificamo-nos. Em meados do século passado Marcuse já nos alertava que um homem forjado nas entranhas de uma sociedade tecnológica seria consumista, conformista e acrítico. Perde-se a essência da vida em troca de suas aparências. Uma sociedade cada vez mais industrial e consumista em seus avanços constrói e cria falsas necessidades que visam integrar o indivíduo ao próprio sistema de produção e consumo. Mas, Marcuse, assim como tantos outros e ideias, atitudes e gestos, é do século XX, o século passado, e na atualidade da dita pós-modernidade o ontem é antigamente.

O artista plástico e escultor Giorgio de Chirico manifestava também sua inquietação ao falar quase profeticamente que "perante a cada vez mais materialista e pragmática orientação de nossa era... não seria excêntrico no futuro contemplar uma sociedade na qual aqueles que vivem para os prazeres da mente deixam de exigir o seu lugar ao sol. O escritor, o sonhador, o pensador, o poeta, o metafísico, o observador... aquele que tenta resolver um enigma ou julgar alguém, tornar-se-á uma figura anacrônica, destinada a desaparecer da face da terra como o ictiossauro ou o mamute". Quase profeticamente, pois é isto em que estamos nos tornando: viventes em um mundo escasso de poesia.
Temo o dia em que não haverá mais poetas. Sem poetas quem haverá de traduzir a poesia da vida? Quem nos auxiliará a retirar o sabor insosso de nossas bocas em um cotidiano mecanizado de encargos e gestos? Quem nos recolherá da inércia dos concretos para o transbordar dos sentidos e nos fazer mergulhar na subjetividade objetiva de todas as coisas? Quem descortinará a trama urdida que se oculta por detrás dos arremedos paisagísticos da realidade? Quem nos afetará a alma e transformará o olhar em afeto? Quem despertará, pois, nossa preguiçosa sensibilidade de seu sono bege onde os sonhos se pensam realizar no shopping da próxima esquina? Repito com Manuel Bandeira que "estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado/do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente/protocolo e e manifestações de apreço ao Sr. diretor [...] Quero antes o lirismo dos loucos/o lirismo dos bêbados/o lirismo difícil e pungente dos bêbados/o lirismo dos clowns de Shakespeare". O que quero é a leviandade dos poetas e a carne viva das entranhas da vida. Quero o mistério e o desnudar abrupto dos segredos. Prefiro o encanto sinuoso das curvas do que a certeza linear das retas. Cobiço a alucinação excitada dos desvairados ao invés da seriedade de quem se esquece de que o coração é um músculo regado de sangue e versos. Ah!, como quero as entrelinhas, o subentendido, o suspiro silencioso da mudez, a sutileza débil do abstrato, o palpitar latente das estrelas e o que se omite na clareza dos escuros. É melhor o escarro de um bêbado que o cuspe contido dos bem comportados. O que está fora de nossas vistas ali está para um dia ser visto.

"A poesia não quer adeptos - dizia Garcia Lorca - quer amantes". Não é nos livros que a poesia está. Ela está no pó da terra de nossas caminhadas e no fruir do sal das marinas distantes. A moral de um poeta é o fogo do amor que o consome e se exalta. A poesia não é e nunca foi feita de regras e normas. Ela é solta e desperta, e ainda mais se liberta quando se mostra em palavras a pureza impura das formas. Um verso é o reverso da realidade. É a vida colocada de cabeça pra baixo.
O crítico e poeta Nelson Ascher escreve (Folha de São Paulo/2007) que o "o último século, aponta para consumidores cada vez mais preguiçosos, cada vez mais sequiosos de um prazer fácil, repetitivo e que não envolva maiores esforços. Como convencer um público sedado por uma satisfação pré-digerida de que há, sim, prazeres maiores, mas que desfrutá-los requer trabalho, empenho e suor?"


Pensar poeticamente é transgredir, ir além do visível, atravessar o verniz das aparências, encontrar a voz do inexprimível. A poesia é mais verossímil do que a veracidade das verdades impostas, pois ela é o incomum do comum, o sonhar dos acordados, o infinito do limitável. Freud reconhecia que "aonde quer que vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim". Porém, dirão alguns, poetas são observadores de pássaros e nuvens. E um poeta responderia: "chega, disse o pássaro/já não suporto tamanha realidade". Os antigos já sabiam que um mundo sem poesia seria um mundo sem beleza. Para Platão o belo não depende dos objetos e da matéria, pois o belo do mundo tocável e do julgamento empobrecido dos homens é apenas um simulacro da beleza verdadeira oculta das coisas. Um poeta é, assim sendo, aquele que vê a vida com um olhar de estrangeiro.

Dizia Lorca que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas". Certo está e escreve Novalis ao afirmar que a poesia é o autêntico real absoluto. E que quanto mais poético, mais verdadeiro. Dai-nos, então, pois, a poesia das ruas e dos meandros, das intimidades caladas das superfícies, dos gemidos das coisas mortas e da insistência do menino que vê o passar da vida como o adejar transitório de uma borboleta.

Dedico minhas inquietações e desassossegos a todos os poetas do ontem, do hoje e do porvir. Sem eles o mundo seria o que apenas é: uma coisa chata metida em uma esfera redonda.
(À Rose, melodia suave dos meus dias)


Joaquim Cesário de Mello 

domingo, 10 de agosto de 2014

(Curto)circuito alternativo

Li recentemente o texto do último domingo do LiteralMENTE escrito - muito bem escrito, por sinal - por Joaquim Cesário e posso dizer que algumas coincidências me ocorreram: a primeira foi a leitura ao acaso e concomitante  de Emily Dickinson e, a segunda, a reflexão que se fez sobre a palavra: “alternativo”. A sintonia com a poeta norte-americana foi ao acaso mesmo, pois levantei os olhos nas estantes de uma biblioteca há uns quinze dias e  fui capturado pelo título de um de seus livros; quanto a segunda reflexão que diz respeito a palavra “Alternativo” não houve coincidências ou acasos, mas uma amarga constatação de que se vem se formando uma elite intelectual - se é que posso  chamar de intelectual, embora inquestionavelmente uma elite - capenga.

O mundo das artes e da literatura foi sempre invadido por um segmento de pessoas  que, apenas pelo modo de se vestir e de se expressar, por si só, já ganhavam o status de cultos e inteligentes. Essas pessoas davam volumes as vernissages, aos lançamentos de livros, aos recitais, aos   workshops “cabeças” e as salas de cinema e teatro e são sobremaneira úteis por duas razões: a primeira porque são eventualmente inteligentes mesmo, ou, pelo menos, se  parecerem inteligentes, e, a segunda, por propagandearem  eventos que tenham algum valor como obra de arte - e eu, no meu otimismo, afirmo que sempre haverão de existir obras de arte, de cinema, de teatro ou de literatura de qualidade.  A dificuldade que eventualmente pode ocorrer é uma dificuldade dessas pessoas em fazer escolhas inteligentes. Posso estar sendo pretensioso em querer aqui ditar normas do que é arte e do que não é arte, mas não sou tão presunçoso assim.  Restrinjo-me a pequenas ocorrências em que, como disse Joaquim, com outras palavras, a estética da cultura vivida por essas pessoas esqueceu seus agentes culturais.

Já devo ter falado aqui mesmo no blog que no passado os filmes de qualidade, muitas vezes, sofriam para entrar no circuito comercial; havia várias razões para isso, desde as dificuldades de recursos ao desinteresse do público. O que nos restava? procurar cinemas mais precários salas apertadas e lugares insalubres. Assisti, por exemplo,  A Hora da Estrela - filme baseado na obra de Clarice Lispector - num cinema pornô, que reservava às 9 horas da manhã do  sábado, no centro da cidade, aos interessados nesse filme; além do horário inconveniente, não havia ar-condicionados, sequer poltronas acolchoadas.  A imagem era razoável, o áudio péssimo. O nome do cinema? Cinema Especial... Lá estávamos todos, os inteligentes, os estetas , os arrogantes, os visionários, os eruditos, os cultos, e por fim, essas pessoas que citei acima que eram, por assim dizer, a caricatura de todos esses. Ees sempre eram - na verdade, sempre serão - maioria. Mas qual era o sentido do evento? a resposta era simples: ter acesso a bons eventos culturais,  mesmo que custasse o desconforto. Daí provavelmente veio um dos sentidos da palavra "alternativo",  e "circuito alternativo". "Alternativo" não era um modo de ser , mas o roteiro de lugares onde, na ocasião, eram  a única alternativa à expressão artística de boa qualidade.
Pois bem, o tempo passou, muitas coisas mudaram,  a palavra culto, se reduziu a “cult” - como sempre temos um verdadeiro fetiche por estrangeirismos - e o lugar alternativo passou a ser o  ator e protagonista, deixando de lado o evento, ou se porventura venha ocorrer algum evento, seria melhor não tê-lo.
Cultua-se hoje, mais ao incômodo, o desconforto, a feiúra, o horrendo, em nome de coisa nenhuma. Explico-me melhor, se  fóssemos atualizar o passado, ser (ou querer ser) culto era assistir Clarice num cinema pornô por não ter outra alternativa -se tivesse melhores,  iríamos, (quer dizer, eu iria) ; e, ser Cult, ou “alternativo" da atualidade, do mesmo modo, seria ir ao cinema, mas no caso a grande “questão” (palavras por demais desgastada) seria curtir não mais Clarice mas quiçá o próprio filme pornô dando-lhe status de uma  obra de Felinni ( “quem é esse cara?” diria o mais honesto  - embora raro - dos “alternativos”).  Há nesse contexto “cultural” uma desvantagem a mais: se se discute o filme pornô nos jargões e clichês inteligentes -  “dentro da perspectiva” do “papo cabeça”, “da exploração sexual”, “da sociedade do corpo”, “da erotização banalizada” etc -  nem mesmo à pornografia o filme se prestou.  Enfim, se valoriza o brega, o grosseiro, o tosco

Talvez por isso, considero muito dessas formas "alternativas",  um modo enrustido  de cultuar  o brega, um brega estilizado, de vocabulário fugidio. Porque enrustido? Porque não se acham, ou não querem se achar bregas. Ser brega  é feio, mas é a "alternativa". "Alternativo" seria então uma forma elegante ou despojada de ser brega, um brega politicamente correto e pop (que nadar tem  haver com popular), ou ainda, como se fossem uma espécie de ativista do brega
Curto
                                         *   *    *

Li quando adolescente um texto teatral que muito me impressionou. Era um texto de um movimento teatral que se chamava na época do "teatro do absurdo"  e Eugênio Ionesco,era um dos seus autores mais importantes  hoje um clássico da dramaturgia. Na peça os personagens iam misteriosamente se transformando em animal, especialmente em rinocerontes. ( "O Rinoceronte" é o título da texto). Tudo parece ocorrer por uma adesão pouco sofrida, pouco questionada, ou se sofrida resignada.como se fizesse parte natural do destino daquela gente. No final um dos personagens, o único não rinoceronte diz: o único que se surpreende, diz:

(...) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo!


                                                                Cai o pano

Marcos Creder

terça-feira, 5 de agosto de 2014

UM REMÉDIO CHAMADO TERAPEUTA





À primeira vista muitos podem considerar que os efeitos terapêuticos de uma psicoterapia estejam diretamente ligados ao manejo técnico empregado. Muito provavelmente, é claro. Todavia, muitos desses muitos acabam por secundarizar ou até mesmo escamotear a fundamental importância da própria pessoa do terapeuta em relação ao processo de melhora e mudança do seu cliente. Digo inclusive que alguns nem se dão conta da relevância do mesmo e acabam reduzindo o fenômeno transmutativo de uma psicoterapia a um amontoado técnico e, às vezes, quantitativo e matematizável. Uma lástima, se assim for.
Comecemos, pois, pelo começo de tudo, isto é, pelo uso do próprio termo psicoterapia, que vem etimologicamente da junção de duas palavras gregas psique e therapeia. A primeira significa alma e a segunda tratamento. Então, diriam os mais apressados, psicoterapia é: tratamento da alma. Não. Therapeia (tratamento) refere ao meio e não ao fim, ou seja, se psicoterapia fosse tratamento da alma estaríamos traduzindo-a como finalidade que é a de tratar a alma do paciente. Porém, repito, tratamento é meio pelo o qual se busca um objetivo terapêutico. Se psicoterapia fosse "tratamento da alma" hidroterapia seria "tratamento da água", e não é: hidroterapia é tratamento através da água, pois o tratamento se faz por meio da água. Neste sentido, psicoterapia representa tratamento através da alma. E alma de quem? Do psicoterapeuta. É ele e sua presença que funciona como vetor do tratamento. Ah! - diriam mais uma vez os apressados - um psicoterapeuta é um profissional formado e capacitado a aplicar técnicas psicoterápicas. É fato. Mas também é fato que um psicoterapeuta é antes de tudo uma pessoa humana - é obvio. E uma pessoa humana é construída de biografia, vivências, experiências, sonhos, realizações e frustrações, sentimentos, intelecto, cultura... enfim: é uma personalidade. E não dá pra escapar ou se esconder por detrás de técnicas, sua personalidade estará sempre lá e influenciará a maneira como cada um maneja as técnicas, por mais semelhantes que elas sejam. Se cada caso é um caso (como se diz popularmente), então cada terapeuta é um terapeuta, e cada relação psicoterápica é uma relação psicoterápica distinta. Ah, como seria simples se tudo e todos fossem iguais, contudo se assim fosse possível que chato e enfadonho a vida seria, não?
Não é necessário apontar estudos e pesquisas como as Martin Seligman (EUA) para sabermos que a qualidade e eficácia de uma psicoterapia se baseia na relação estabelecida entre o paciente e seu terapeuta. As características de personalidade de ambos são essenciais e vitais a boa condução do processo em si. Seria tolo ou ingênuo desprezar a pessoa do psicoterapeuta como uma importante variável da intervenção psicoterápica. Os estilos pessoais e atitudinais de lidar com as emoções, os pensamentos e as outras pessoas por parte do terapeuta fazem parte intrínseca da complexidade interativa contida na relação que convencionamos chamar de psicoterapia. Sua maturidade como ser humano e pessoa, conjugada a sua experiência profissional e sua bagagem existencial e cultural, influencia e determina o que se escuta e como se intervem. Não é a toa que Jung já dizia que "a personalidade do terapeuta é o grande fator curativo da psicoterapia".
Direta ou indiretamente a psicoterapia é um trabalho de ressignificação psíquica, ressignificação esta que envolve pensamentos, sentimentos, atitudes, valores, posturas, visão de mundo, auto-imagem e relacionamentos. É um verdadeiro trabalho, muitas vezes de "formiguinha", de reconstrução onde histórias antigas são reformuladas à luz de novas perspectivas co-produzidas na interação dialogal com o terapeuta, abrindo, assim, novas possibilidades para a pessoa e a vida do cliente em questão. Neste sentido um psicoterapeuta é uma espécie de reconstrutor partícipe que contribui para a cogeração de uma nova narrativa, onde a história pessoal de construção do mundo - sua e do cliente - dialeticamente se envolvem e se interligam com o objetivo da abertura de novas premissas e ampliações de horizontes relacionadas ao discurso inicial da pessoa que está no exercício do papel de paciente. O terapeuta não é em si um especialista com visão privilegiada, mas sim um facilitador do colóquio e da conversão terapêutica. Salvador Minuchin dizia que a meta psicoterápica é transcender a técnica, transformando-a em arte. Qual o artista, um artista de verdade, que não tenha desenvolvido um estilo próprio a partir de seus recursos, crescimento e limitações pessoais.
A criatividade faz parte do processo, ou como afirma Goolishian: "Se você sabe o que fazer, isto o limita. Se você sabe mais a respeito do que não fazer, então existe uma infinidade de coisas que podem ser feitas". Não custa nada enfatizar que o principal instrumento de um psicoterapeuta é sua história de vida, sua maturidade e seus conhecimentos gerais e/ou específicos. Tanto a teoria quanto a técnica só se tornam vivas e tomam morfologia real através do ser humano e personalidade do terapeuta. Uma psicoterapia, qualquer que ela seja, voltada ao apoio ou voltada ao insight, é sempre um encontro, um encontro que é mais do que interpessoal, que é também intersubjetivo. 
Por muitos anos, devido a forte influência da Psicanálise em seu modelo clássico, a personalidade do terapeuta era vista como influenciando negativamente o processo psicoterápico. E isto pode mesmo às vezes ocorrer. Todavia não podemos evitar que no relacionamento clínico a pessoa real do profissional não contribua inevitavelmente para os destinos da psicoterapia. O material a ser interpretado e manejado têm como ponto de partida a personalidade do terapeuta. É nela que se escuta e é dela que se manifestam as intervenções. Sim, a personalidade do terapeuta tanto é um recurso indispensável quanto pode ser também um obstáculo. Quanto mais ele estiver cônscio das dimensões do seu próprio ser, de suas precariedades e de suas potencialidades, quanto menos inibido e neurótico for, quanto mais se autoconhecer e maduro estiver, mais útil ele será em sua proposta psicoterápica com seu cliente.
Não se é eficazmente e nem funcionalmente um terapeuta aquele que se esconde por detrás de uma rígida máscara tecnicista. Óbvio que seus conhecimentos profissionais são de suma importância e destaque, conhecimentos estes adquiridos ao longo do tempo de estudos, pesquisas e prática. Entretanto também é patente que o seu ser como um todo é seu próprio instrumento. A função precípua de um psicoterapeuta é ser uma espécie de "caixa de ressonância" do que ocorre entre ele e seu paciente. Por menos vivencial que seja uma abordagem psicoterápica ela é sempre uma abordagem vivencial e a inautenticidade compromete a qualidade desta relação. Aqui, até mais do que em muitas situações profissionais outras, o trabalho (clínico) exige mais e além do que a formação acadêmica e de todo o conhecimento teórico adquirido. Daí a importância de seguir suas próprias inclinações e preferências ao se recorrer às teorias e às técnicas à disposição, e melhorar cada vez mais tais ferramentas com seu toque pessoal, sua impressão digital, além de se permitir criar outras.
É necessário, portanto, se sentir pessoa no exercício do papel de psicoterapeuta, adquirir ou desenvolver mais reflexividade, flexibilidade e criticidade. É por demais íntima a relação entre as habilidades profissionais e as habilidades pessoais. As duas facetas de uma mesma moeda compõem um todo indivisível, ao ponto de como diz Moreno "a personalidade do terapeuta é a sua habilidade".
Acima escrevíamos que o trabalho clinico exige mais do que a formação acadêmica e do conjunto de conhecimentos teóricos e técnicos aprendidos. Tal ponto é de novo enfatizado para destacar que a posição (não a profissão) de um psicoterapeuta é a posição de escutar, de ir além do só ouvir, de escutar com aquilo que Reik denominou de "terceiro ouvido", isto é, escutar o que diz o paciente e o que não diz, escutar, inclusive, com suas próprias entranhas e vozes interiores. Ter um bom domínio técnico e teórico contribui sobremaneira à mudança do cliente, mas de pouca serventia teria todas as técnicas e metodologias do mundo se não houvesse o self de alguém a conduzi-las.

Joaquim Cesário de Mello

PS: dedico este texto aos meus alunos de Psicologia Clínica que estão começando a passar pela fenda que os levará a esse instigante e imenso universo que é o de lidar com a mente humana e melhor ajudá-la a se desenvolver. Para eles igualmente sugiro a leitura complementar do seguinte artigo "Aprendendo a Ser Psicoterapeuta", de Elizabeth Faleiros, http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932004000100003

domingo, 3 de agosto de 2014

ALTERNATIVO SÃO OS OUTROS




Recentemente transitou nos palcos recifenses - mais precisamente no teatro da Caixa Cultural - a peça Um chá com Emily Dickinson. Espetáculo à parte, vamos abrir um pequeno espaço para falar da grande Emily, principalmente para aqueles que vivem a aridez cultural contemporânea onde ser cult (ou alternativo, como alguns se auto preconizam) é beber Skol morna em mercados públicos da vida ao som de covers performáticos de Sidney Magal. Cruz credo.

Quem foi Elily Dickinson? Poeta americana do século XIX viveu quase reclusa a maioria dos seus 55 anos de vida. Sua obra só se tornou mundialmente conhecida após sua morte em 1886. Reconhecidamente uma das maiores poetas da história teve uma existência terrena interiorana e isolada. Pouco se sabe dela, provavelmente por não ter tido fatos significativos em sua passagem pela vida, exceto pelos mais de 1700 poemas escritos. O contexto sócio-histórico e cultural de sua época era de clara opressão às mulheres, onde delas se esperavam obediências aos pais e aos maridos. Casamento, maternidade e responsabilidades domésticas era o destino exigido às mesmas. Dickinson, uma mulher isolada, que tanto versou sobre a liberdade e o sofrimento feminino. Seu labor literário soava estranho ao seu tempo, porém a sensibilidade contida em seus versos, sua ironia, perplexidade e ambiguidade é raiz para a modernidade posterior. Uma escrita para além de sua época e que mira certeiramente no alvo da eternidade. A sua originalidade transcende a mera passagem do instante.

"Uma palavra morre
Quando é dita -
Dir-se-ia -
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia".



"Julgai-me com ternura" diz ela em um verso. Lírica, romântica e intensa, ler seus textos é verdadeiramente uma experiência inusitada. Muitas vezes trancada em casa evitou o estrelato e a notoriedade, e exilou-se em si como uma ermitã cujo eremitério era a profundeza de sua própria alma. Em uma carta escreve ela: "se a fama me pertencesse, eu não conseguiria fugir a ela - se assim não fosse, o mais longo dos dias seria gasto em seu encalço - e eu perderia a aprovação do meu cão". Publicar em livros estava para ela - dizia - tão distante do seu pensamento como o firmamento está para os peixes. Ou como em um poema afirmava que " a mente pertence Àquele que a deu/ Depois ao que sustenta". Coerente expressava: "Fame is the one that does not stay" (fama é aquela que não demora). Emily decididamente não queria morrer - e conseguiu. Emily Dickinson tinha o dom telegráfico de saber condensar suas agonias e êxtases em linguagem fragmentada impregnada de inovações estéticas.

"Quem está morrendo, amor,
Precisa de tão pouco:
Um copo d’água, o Rosto
Discreto de uma Flor,

Um Leque, talvez, Uma Dor Amiga,
E a Certeza que nenhuma cor
Do Arco-Íris perceba
Quando embora for."


"A minha vida fechou-se duas vezes antes de se fechar". Lê-la é como ouvi-la falar baixinho, quase inaudível. Compreendê-la é prescrutar as entrelinhas como quem ausculta a silenciosa respiração inexprimível da alma. Ou como ela mesma diz, "dizer toda a verdade, mas obliquamente". Por isso o batimento cardíaco de seus versos não se faz na leitura direta dos mesmos, porém de soslaio no transversal e transverso dos mesmos. Como afirma o tradutor José Lira, a obra de Emily Dickinson é uma colcha de retalhos costurada com poemas de grande força lírica. Parece mais até um  rascunho, esboços de sugestões e insinuações, ruídos e silêncios. Entre suas temáticas preferidas temos a morte e a imortalidade, assim como o amor, a dor, a fé e a esperança na vida. 
Escondida do mundo em sua agorafobia, observou o mundo como poucos. Reclusa, fez-me mítica. Dela só se sabe uma única foto (aqui utilizada), e embora apareça às gerações seguintes vestindo preto, a cor branca foi a que usou em seus últimos anos de vida. O branco símbolo, o mesmo branco que se encontra em uma folha de papel antes de perder sua virginal brancura pura pelos traços de suas escritas. O branco que - como diz a poeta Cláudia Fernandes - "seria apenas uma cor/ se não fosse para o escuro/ um indesculpável insulto". A branca dor da escrita, como no título do livro de Lucia Castello Branco em que traduz poemas e cartas de Dickinson.

"Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão".

Não é hoje que quem me conhece, de perto ou de longe, sabe o quanto entendo a poesia como a expressão primeira e maior da alma humana. Não há psicologia vivida em que não haja poesia. Um poeta é mais do que uma antena de uma alma; um poeta é a própria alma que se fez antena. Desculpem-me, pois, aqueles que se acham alternativos ou cults por gostarem de agitos da moda, de cerveja morna e de tira-gostos de origem duvidosa. Se para tais ser alternativo é sentar em cadeiras desconfortáveis, no mormaço sudoroso de meio-dia e ouvir Maria Gadú, então, decididamente, alternativo são os outros.
Prefiro, então, o que diz Emily Dickinson quando diz:

"Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também - tu não és - Ninguém?
Somos um par - nada digas!
Banir-nos-iam - não sabes?

Mas que horrível - ser-se - Alguém!
Uma Rã que o dia todo -
Coaxa em público o nome
Para quem a admira - o Lodo."

Joaquim Cesário de Mello