domingo, 7 de dezembro de 2014

SILÊNCIO PARA OUVIR O SILÊNCIO



O mundo de repente calou-se. Nenhum som, sequer nenhum ruído. Toda uma calmaria me cercou no emudecimento do cosmos, feito uma casa retirada de crianças e dos demais adultos. Na solidão em que me imponho dilata-se o vazio das coisas vivas, enquanto me debruço além da garganta, das epidermes e dos ossos. Ouço-me ao estender-me para dentro na quietude morna  e comedida das ressonâncias agora outonais de verões passados. Sinto em meu rosto o sol em plena noite. Transformo-me em uma agigantada madrugada sem fim desabafando gemidos de um outro silêncio que desabrocha no tremeluzir profundo das minhas ocultas entranhas.





Poderia iniciar assim um esboço de texto se pretendesse fazer aqui literatura. Poderia ser um conto, uma crônica ou uma prosa poética qualquer. Porém, meu presente intuito é apenas abordar a temática em termos de um pequeno ensaio. Perdoem-me se fiz pensar tratar-se de outra coisa, mas vamos, então, ao que interessa, isto é, penetrar nos espaços onde os sons corriqueiros não entram e cuja a vida, como escreveu o poeta Rainer Maria Rilke, "perdura ao lado da nossa, que passa". Voltar-se a si mesmo. Escutar o indizível. Reconhecer os mais inaudíveis ruídos e sonidos. Ir aonde o ouvido não vai. E ouvir o silêncio que sempre está por detrás do silêncio.
Voltar-se para dentro significa interiorizar-se. Dentro do homem habita o homem. Como diz José Saramago, em seu livro "Ensaio sobre a cegueira", "dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Santo Agostinho (considerado o "pai da interioridade") afirmou que "é no interior do homem que habita a verdade". Não saiamos, portanto, tanto para fora - como de hábito e frequência fazemos. Retiremo-nos, de vez em quando, do mundo externo e suas mundanidades ruidosas. Afastemo-nos, pois, alguns instantes, do falatório e barulho geral. Cerquemo-nos de silêncio, para a partir dele escutarmos outras vozes. Alguém já disse que o silêncio é o respirar da alma. Ou como expressou Confúsio: "O silêncio é um amigo que nunca trai".


A agitação nos distrai. No alvoroço da vida banal muitas são as vezes em que nos multiplicamos e nos fragmentamos, nos diversificamos. É necessário um certo afastamento de tudo, ingressar no ócio, para que possamos refletir, desenvolver nossos potenciais, conhecer e melhorar quem somos. Damásio, em seu livro "O ócio criativo", diz que precisamos descansar a mente através do ócio criativo que, segundo ele, é aquela trabalheira mental que acontece quando ficamos parados. Ociar, diz Damásio, não significa não pensar; significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelos relógios e não obedecer aos percursos de certas racionalidades. Não forcemos, pois, o germinar que se inicia no afastamento dos pensamentos não pensados. Sem pressa permitamos o amadurecer das palavras escurecidas rumo ao parto de sua luz. Deixemos o fluir do questionar das verdades prontas e nos coloquemos a desaprender, como ensina Barthes, tudo o que temos aprendido. É necessário, portanto, não conhecer para ter anseio de conhecer. É como escrevem Gilberto Dimenstein e Rubem Alves, em "Fomos maus alunos", "o aprendido se agarra de uma forma terrível e é o aprendido que impede que eu aprenda uma coisa de uma maneira diferente". Nossas certezas e nossas verdades são impregnadas de talvez.
Parafraseando o escritor Virgílio Ferreira ("fecha os olhos para não seres cego"), tapemos os ouvidos não ficarmos surdos. Refletir, disse certa vez Jean Rostand, é desarrumar os pensamentos. É no calar da cacafonia do mundo externo que o mundo interno se nos revela. Não existe silêncio absoluto, pois até o nada tem lá seus murmúrios e cochichos. O silêncio completo é inexistência. E se existo, então posso me ouvir. Assim, nem o silêncio silencia o silêncio.
Refletir é uma atividade mental, todavia uma atividade mental diferente do pensar como pensamos vulgarmente nos nossos espaços correntes do cotidiano. É analisar e avaliar o visto, ouvido, cheirado, tocado, sentido. lembrado, sonhado, pensado..., enfim, é moer, ruminar e elucubrar o que há em nós. É caminhar para dentro até para melhor entender o fora. É consultar a alma e pensá-la, aliás, pensar com ela e a partir dela. Dialogar com a própria mente e com o mundo e a vida por meio dela requer um processo psíquico elaborativo auto discursivo. Vejamos, por exemplo, o conceito de meditação, cuja etimologia vem do latim meditare que significa "voltar-se para o interior de si com o sentido de desligar-se do mundo exterior". É um voltar a atenção para dentro do seu psiquismo no intuito de escutar-se, melhor compreender a sua existência e o mundo circundante, como uma espécie de instrumento ao desenvolvimento pessoal. Muitas vezes associada a práticas religiosas, o ato de meditar é ultrapassar o intelecto comumente usado ("calar a mente") para contemplar o habitualmente incontemplável. Também o termo refletir traz sentido análogo, ou seja, significa um movimento de volta sobre si mesmo, no qual o pensamento passa a questionar o pensamento e as nossas ações e relações com a realidade vivenciada. Questões como: por que pensamos o que pensamos?; por que fazemos o que fazemos?; o que eu quero quando penso, ajo e falo?; qual ou quais minhas reais intencionalidades?; que sentido tem a vida?; que sentido tem a minha vida?, entre outras, contribui para o entendimento e aprofundamento de nossas essências e existências.
Silenciar o balbucio das rotinas e do trivial dos dias. Cobrir o redor de fundura noite para iluminar as tênues e frágeis luzes que se encobrem pelo brilhar ruidoso do cotidiano usual. Apagar as aparências para descobrir o submerso. É no emudecer das zoadas e dos sons audíveis que podemos escutar os sons que vêm das entranhas das coisas, vivas e mortas. Como diz Fernando Pessoa, "é fácil trocar as palavras/difícil é interpretar os silêncios". Quando outro poeta, Manoel de Barros (falecido recentemente), afirma que é difícil fotografar o silêncio, ele também assim o tenta e fotografa uma nuvem de calças. O mesmo reconhece o escritor Franz Kafka quando propõe:

"Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés."



Se fosse fazer deste meu texto aqui um outro texto (mais poético ou literário) talvez eu continuasse o que o acima iniciei da seguinte maneira e curso:

Agora que o silêncio me toma e me apodera estou tão despovoado de tudo e de todos que posso ouvir o passar dos minutos, o murmurar dos objetos e o acasalar das formigas. A nitidez em que me encontro assusta-me. Receio o encontrar das respostas a perguntas que nunca ousarei fazer. Na vastidão deste silêncio impoluído algo se move e suspira. Chego a sentir em minha nuca o segredar de seus respiros. Reconheço o frágil som de sua voz que vem lá do fundo do baú da minha memória. Sou eu, menino, que na inalação do adulto se exala. E me fala a linguagem pura e sensível das crianças. É quando o emudecer do universo explode em sons variados e infinitos. E todo o mundo, o mundo inteiro, se vê invadido por uma estranha e nova polifonia, de sons, significados e vozes. Na ausência das palavras, o silêncio, então, baila brincante na festa que ele criou.

Talvez o texto que jamais farei discorresse assim. 
Talvez...

Joaquim Cesário de Mello


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