domingo, 19 de outubro de 2014

do romantismo e da melancolia: enquanto dure



Costumo dizer que os enredos românticas, até mesmo os "água com açúcar", tem elementos pessimistas ou melancólicos . No universo da literatura e do cinema essas história acabam por terminar em algumas tragédias, ou na melhor das hipóteses, num amor impossível e irrealizável. Alguns exemplos são bem destacáveis:  a história  de casais famosos da literatura  como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Ulisses e Penélope, Lancelot e Guinevere, assim como os do  cinema como, Rick Blaine e Ilsa Lund (do filme Casablanca) e Rhett Butler E Scarlett O'Hara (...e o Vento Levou). Vi não faz muito tempo uma jovem adolescente comentar com outra de forma bem pragmática :  "se eu tivesse feito o filme Antes do Amanhecer, eu deixaria  o casal continuar juntos e viverem felizes para sempre" ; Já uma mulher mais madura, fez comentário semelhante sobre o final do filme As  Pontes de Madison. Os argumentos dessas mulheres, entre muitas outras, sustentam o fato de  que, desse modo, esses filmes seriam ainda   "mais românticos, mais felizes e mais apaixonantes". A esse comentários posso dizer que concordo... parcialmente. Se uma história romântica segue em frente o casal poderá ser feliz, mas dificilmente conseguirão sustentar a paixão, e gradualmente, o romantismo vai se evaporando. Na verdade, a paixão nada tem haver com felicidade, na maioria das vezes os apaixonados sofrem mais com o sentimento do que se sentem bem. A própria palavra paixão é, por si só, ambígua, vem de páthos que em grego significa paixão - como a entendemos - e sofrimento. A relação de paixão e sofrimento é muito frequente na medicina, por exemplo. As palavras patologia, fisiopatológico, psicopatologia,  patogênese,são todas que fazem referência ao sofrimento. Esses significados não fazem qualquer referência à alegria, muito menos à felicidade.


Os temas românticos exploram justamente  a paixão, no sentido mais ensandecido da palavra,  e os recorta dentro do limite do impossível. Por isso que quando culmina num final dramático deixam as pessoas aflitas e fazem do filme inesquecível, pois se assim não terminassem, não seriam sequer filmes românticos, pois sem esse sofrimento/paixão teriam poucas chances de serem românticos. A Paixão e a vida romântica são irmãs gêmeas, nascidas com uma doença incurável e mortal que um dia "no melhor da história" ocorre sua dissolução. Ambas são filhas do desejo, mas nem todo desejo é romântico ou apaixonado. Pode haver um distanciamento, embora que alguns desses desejos desprovidos de paixão ou romantismo, tenham eventualmente elementos perversos - elementos perversos nao é o mesmo que perversão - nesse há um modo de funcionamento bem mais complexo. Que são esses elementos, então? São fantasias nada românticas que atiçam (eroticamente) o desejo pelo outro, fantasias que costumam consumar atos que muitos românticos apenas pensou. O fato dessas fantasias com elementos transgressores não serem românticas não desconsidera o outro. O outro só é desconsiderado na perversão propriamente dito.

A personagem mais romântica e com final mais  dramático da literatura  é Emma Bovary - do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert. Emma, no texto,  é mulher de um médico numa pequena cidade francesa, que entediada e  insatisfeita com o cotidiano, resolve  viver aventuras de amor, que supunha,  amor verdadeiro. Encontra não um, mas vários, e com facilidade, contudo, num misto de ingenuidade e de impulsividade as contingências de sua vida assiste a diversos fracassos. Fracassos insuportáveis e previsíveis, diga-se de passagem. Emma desiludida, invadida pelo vazio do desamor, envenena-se. A desilusão é a constatação de que se vivia apenas uma vertigem,  uma boa vertigem, desencanto comum também as pessoas de uma maneira geral. A vida existe sem essas ilusões? Suponho que não, o que nos sustenta são justamente essas vertigens cotidianas, muitas delas impossíveis de por em prática. Essas ilusões são em sua maioria estéticas; apaixona-se  muito mais pelo ambiente romântico do que propriamente por uma pessoa - que nesse ambiente é algo perto do maravilhoso.


Para quem não assistiu ao filme, As Pontes de Madison conta a história de uma mulher igualmente entediada que encontra o "homem perfeito", um forasteiro, com quem vive uma aventura. No final, quando todos os expectadores esperavam por uma decisão em favor da paixão, essa mulher - não me recordo o nome da personagem - recua para sua vida tediosa. Decisão acertada? Sensata? Pé no chão? Pois é... Não se sabe a resposta. A única coisa que se pode afirmar é que até o último de sua vida, viveu uma paixão e uma ilusão inesquecíveis - a narrativa do filme é a transcrição de um diário encontrado,  depois de sua morte, pelos filhos - horrorizados - em que ela relata esses dias apaixonados. Enfim, história bonita, romântica e... melancólica.


Marcos Creder

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