sábado, 29 de setembro de 2012

VARIAÇÕES SOBRE DUAS PERSONALIDADES II


JULIANA MELO ( Psicologia FAFIRE)

Fiz uma lista dos filmes que pretendo ver antes de abandonar este corpo para sempre - o que eu espero que demore o suficiente para ver muitos filmes. - Parecendo ser um filme de cenhos franzidos e respiração descompassada, Betty Blue, passou a ser um dos primeiros da fila desse, tão esperado, fim de semana. A publicação motivadora da presente escrita, me remete invariavelmente às paixões e suas nuances, tema inquietante, belo e suscitador de extrema curiosidade e interesse em mim.
Sem mais protelações... Agora, toda essa coisa da paixão... Empolga tanto que cansa!
Todos nós, herdeiros do romantismo cedo e sonhador, sentimos correr nas veias o desejo insaciável por essa paixão que tira o fôlego e o chão, desejamos ser arrebatados da monotonia do cotidiano, assim como Zorg foi, por esse encanto que faz o coração saltitar inquieto, faz as mãos suarem e faz a alma rir em deboche do descontrole que invade e exorta esse reboliço de chaga aberta. É exatamente essa delicia toda, que ferve e arde por dentro até desaguar no olhar aceso, curioso e de puro fulgor, delatador dos apaixonados.
- um suspiro profundo-
Travei quando senti que era hora de falar do abismo que anda de mãos dadas com o paraíso... Nossa, como a paixão pode gerar sofrimento, sofrimento esse tantas vezes enlouquecedor, de fato; sofrimento inspirador de tantos poetas e artistas.
Quem ama se apossa de uma beleza particularmente sequiosa, beleza roubada de uma lua cheia, amarelada, gorda e imponente, recém aparecida no céu. Quem sofre por amor apodera-se de uma beleza outra, roubada de um rio quase seco, ladeado pelo chão rachado do castigo infligido pelo sol. Quem sofre por amor carrega no olhar marejado e nos movimentos encharcados de languidez, a beleza de quem já foi tão feliz que fatigou, tão feliz que deu um tempo para o silêncio acalmar os sentidos, uma vez sobrecarregados de uma saborosa tórridez.
A entrega é bela, e entregar-se é condição sine qua non do apaixonar-se, seja o se entregar ao prazer ou ao abismo do sofrimento que nos suga e, por sorte ou perversão, nos expele de volta à superfície só para ter o gozo garantido e repetido de nos engolir de novo, ao termino da paixão subsequente.
O ser humano que não cansa da paixão e abre mão do seu tresloucado jeito de ser pela tranquilidade morna e acolhedora do amor, em definitivo não busca o equilíbrio. Busca sim o fogo e o gelo, ambos ardem e queimam a pele e o coração. Viram pó para depois queimar de novo, viram gelo para novamente, se liquefazer.

Essa musica, na voz da nossa saudosa Elis, não saia da minha mente durante todo o texto. Acho que pelo fato de imortalizar na melodia o que as palavras sozinhas não conseguem dizer.
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.”


“Emma Bovarry C’est moi.” E de novo, observo em mim e em todos, ou quase todos, essa vontade incontida do novo, da emoção que só o amor romântico parece poder oferecer. Madame Bovay não é ninguém unicamente personificada, que viveu nos idos do sec. XIX. Ela é um transeunte de cabeça baixa saindo arrependido de um encontro adultero, ela é a adolescente que confessa ao seu diário a primeira e mágica paixão, ela é a noiva que sobe ao altar, mergulhada, alias, afogada em ilusões e é também, o noivo que não sabe ao certo se realmente quer dizer sim, madame Bovay é a esposa que pisca para o bonitão no restaurante enquanto o marido esta com o olhar fixo na carta de vinhos, ela é ainda, aquele casal que se ama ardentemente mas deseja, também ardentemente, outros corpos, outras histórias, mas abdica, numa escolha consciente essa pluralidade afetiva, Emma Bovary é o leitor que sonha viver um romance literário genuíno. 
Somos todos assim, desejosos sofredores que conseguem ou não satisfazer seus impulsos. Somos assim, quase sempre perdidos em devaneios, em desejos inebriados pela fumaça do cigarro e o cheiro do café. Somos também, esses que se forçam a acreditar que o tempo de amar se foi, que esse tempo ficou aprisionado no retrato dos nossos avós, que o hoje é tempo de produzir e não de sentir. Somos esses que tantas vezes se auto – sabotam acreditando que as desilusões são leões famintos esperando um vacilo pra nos abocanhar e nos destroçar para sempre, no vazio do eterno sofrimento. E quem pode sofrer nos tempos da felicidade de vitrine?

VARIAÇÕES SOBRE DUAS PERSONALIDADES I





MARINA ANDRADE (PSICOLOGIA FAFIRE)
 A cidade fronteiriça

                Não sei exatamente o que pretendiam os criadores do blog ao colocar imagens de Recife como pano de fundo do mesmo, mas a experiência estético-literária de contato simultâneo com a narrativa de “um amor fronteiriço” e com as imagens da nossa cidade arrastou meu pensamento, por uma franca associação livre, a pensar na sintomatologia boderline da nossa Veneza.
                Descobri com o texto de Marcos Créder, O drama de uma personalidade, a existência da discussão “caricata, repetitiva e chata” sobre o caráter contemporâneo do transtorno boderline. Esclareço, de partida, que não foi esse o sentindo por onde me encaminhou o livre curso do meu pensamento.
                 Não foi a ideia de uma sintomatologia comum a muitos habitantes, devido a fatores sociais partilhados, que me ocorreu, mas a ideia da própria cidade, em suas manifestações culturais e rotineiras amplas, apresentar um caráter um tanto quanto... fronteiriço.
                 A monotonia da vida de Zorg remeteu-me ao marasmo de certas repartições públicas, à vida pacata e entediante do funcionalismo público sonolento que perambula em alguns prédios do Recife Antigo, da Rua da Aurora, na falta de esperança e vivacidade dos trabalhadores da educação pública. Posso pressentir o tédio de Zorg na rotina do cobrador do Barro-Macaxeira, do caixa do Banco do Brasil, do gari do Beco da Fome. Não falo do tédio que concerne a cada um na relação com a sua rotina, mas no tédio que vem de uma falta de sentido compartilhada por moradores de uma capital de Terceiro Mundo com um quê de abandono evidente.
                Não é de espantar, portanto, que explosões intensas de afetos arrebatem tão completamente a cidade em determinados momentos. Às vezes são explosões de alegria, euforia, amores passageiros e relações sexuais inusitadas, temperadas pela liberação de realizações inconscientes em formas de fantasias, fomentadas pelo calor provocativo do álcool e das grandes multidões.
                No entanto, paira, na cidade, a ameaça constante de uma agressividade mal-gerida, que pode manifestar-se, desavisadamente, em qualquer esquina... O roubo é o menor dos males a ser esperado de uma cidade emocionalmente ambígua e facilmente irritável. Para quem quer comprovar esse lado irritadiço da mesma cidade que queima de alegria e de paixão em fevereiro, não é preciso esperar que o acaso o coloque cara a cara com um agressor armado; basta aventurar-se a deslocar-se de Setúbal à Conde da Boa Vista às 7 horas da manhã.
                Há, ainda, momentos em que os arroubos de alegria, euforia e agressividade intensas se confundem. Para os que não compartilham das paixões representadas pelas diferentes misturas entre o vermelho, o preto e o branco, é aconselhável distanciar-se, pois as crises de uma cidade boderline podem ter consequências desastrosas. Não é raro que o resultado desses momentos de paixão e devoção tão intensas seja a destruição de transportes públicos, a hospitalização de portadores de uma das combinações entre as três cores tabu, envolvidos ou não nas demonstrações arrebatadoras de afetos.
                Talvez, haja em Recife, como em Betty, um pano de fundo de depressão, de ressentimento com um histórico político de abandono e de cinismo, que terminaram por constituir uma personalidade instável e agressiva, embora fascinante e sedutora.

De Freud a Flaubert

                Foi muito curioso descobrir Marcos Créder como escritor e como crítico literário. Sempre achei que escritores (e outros artistas) e psicólogos (incluo no grupo psicanalistas e psiquiatras que olham para além da prescrição de fármacos) devem ter muito em comum. Primeiramente, a semelhança mais evidente, ambos têm a linguagem como ferramenta básica de sua atuação, e espera-se (dos bons) uma habilidade acima da média para lidar com símbolos e com o que ultrapassa o óbvio no ser humano. Além disso, imagino que há, nas motivações inconscientes de ambos, para olhar tão de perto a condição humana, um quê de voyeurismo e de sadismo sublimados. Sobretudo se pensarmos que ambos (mais uma vez, os bons) têm, por hábito, fincar o olhar principalmente nos aspectos conflitivos, dolorosos e controversos do ser humano.
                No entanto – peço perdão aos trabalhadores da saúde mental – creio que os escritores dão um passo além: ao contrário do terapeuta, que se depara com algumas amostras de subjetividades em carne e osso e analisa-as a partir de dados que observa em seu consultório de paredes concretas, o escritor parece ter uma antena capaz de captar modelos de subjetividade que flutuam na atmosfera e que, como coloca Créder, falam, inevitavelmente, de todos nós.
                Assim como se espera que, deitados em um divã, possamos encontrar a possibilidade de projetar no analista nossos desejos e angústias e encará-los como em um espelho, também diante de um bom livro (ou de um bom filme) podemos estar certos de encontrar nossas projeções inconscientes tomando formas nas personagens. E, escritores e terapeutas sabem disso, encontrar nossas projeções inconscientes não costuma ser muito agradável.
                 Emma Bovary, assim como Anna Karenina e a representante portuguesa da histeria, Luísa, desmascaram o lado mórbido das fantasias românticas, trazem à tona o conteúdo recalcado por anos de romantismo ingênuo. Tal qual a paciente histérica que se depara com o lado doentio de suas fantasias, imagino que não tenha sido fácil para os primeiros leitores que se viram nos espelhos fornecidos por Flaubert, Tolstoi e Eça de Queirós, visto que estavam ainda embalados pela promessa de amores românticos capazes de dar conta de todos os vazios e insatisfações. É curioso que os insights possibilitados pelos realistas sejam contemporâneos às grandes descobertas psicanalíticas sobre a histeria., assim como a insustentável leveza do ser seja desvelada na mesma época em que a síndrome do pânico ocupe lugar de destaque nos debates psiquiátricos.
                Além dos histéricos (ou das histéricas?), também os obsessivos foram revelados pelo realismo. Lembro do Major Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, que cumpria os horários de maneira tão rígida, que suas passagens na rua eram usadas como marcador de tempo pelos vizinhos. E o que seria a infatigabilidade de Simão Bacamarte, se não as marcas de uma personalidade anancástica?
                Machado de Assis é, talvez, uma das maiores referências dessa habilidade para olhar de perto a alma humana. Além dos obsessivos, foi Machado o criador do paranóide mais analisado do Brasil. Tenho certeza de que Machado, assim como seus leitores, sendo sinceros, poderiam dizer, sem medo de errar, “Bento Santiago sou eu!”.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

CESTA DE VERSO & PROSA

A DEDICATÓRIA
VOCÊS NÃO ME CONHECEM. Chamo-me Damaso e fui presenteado ontem com um livro. A pessoa que me presenteou, um grande amigo, fez questão de que o autor me fizesse uma dedicatória mesmo sem minha presença. Disse-me: "queria que escrevesse em poucas palavras as características de sua personalidade"... pois bem, não li no momento em que ganhei, estava escuro, pude apenas, na penumbra, ler o título do livro: "O Livro Submerso", de um autor que até então desconhecia – quer dizer, conheci Marcos Creder agora há pouco – e graças a ele pude escrever esse texto. Na verdade, não escrevi, narrei a ele toda esse pequeno acontecimento e ele pacientemente pôs no papel. Descobri que escrevia num blog - esse blog.
Hoje de manhã tentei ler a dedicatória, mas como as palavras estavam amarrotadas pela pressa do autor, não tive qualquer entendimento. Havia algo como: "ao amigo Damaso...", o restante era incompreensível. O texto era curto, contaria no máximo com mais dez palavras, uma delas tinha o formato da palavra "estima", e outra parecia com "distinto". Enfim, não havia qualquer suposição do que o texto queria me dizer. Fui então a internet e coloquei o nome "Marcos Creder", e o google me corrigiu, você não quis dizer marcos ceder. Não! Não quis... Abaixo havia algumas referências a um psiquiatra. Cada vez que lia os links entendia menos: Livro Submerso, psiquiatria, consultórios, Graças, Dor, LiteralMente,  essas palavras pareciam formar o mesmo embaraço da dedicatória. Fiz algumas suposições interpretativas: um psiquiatra escrever um livro de nome "O Livro Submerso"... esquisito! O mais estranho ou surpreendente era o amigo meu me presentear com um livro de um psiquiatra e, ainda assim, pede para descrever minha personalidade... Havia um incômodo entre o presente e o autor. Foi nesse momento, que tomei a palavra parcialmente incompreensível na dedicatória e coloquei mais uma vez no buscador junto com algumas palavras-chaves, "distinto", "psiquatria", "Marcos Creder". Troquei algumas vogais e consoantes e tive várias possibilidades de temas, mas uma delas me chamou atenção: você não quis dizer distimia? O que era isso? a resposta não demorou: "transtorno mental crônico", "depressivo irritável", "mau humorado", "baixa auto-estima" – fazia sentido agora a palavra "estima" solta no texto. Abri o livro, era um livro de contos, li um deles. Uma angústia me tomou e corri para a primeira livraria para saber mais desse autor.
O dia de hoje começou como esses dias claros de inverno, e, ao tomar o ônibus, sentei-me ao  lado de uma jovenzinha com (acreditem!) o mesmo livro na mão – uma dessas coincidências que surpreendeu o próprio autor - "meus leitores são uma raridade", disse-me com um olhar de surpresa quando o conheci. Tentei puxar alguma conversa com a aquela mulher, mas nada me fazia aproximar. era monossilábica, desconfiada, coisas de mulher. Não tive outra escolha , fui objetivo:
"Você comprou esse livro aonde?"
"Eu não comprei, emprestaram-me"
Olhei o semblante da jovem mulher e percebi que tinha traços joviais, de uma beleza franca – a franqueza, sem dúvida, estava no seu olhar, eram dois olhos negros que no franzir da testa concentravam nas coisas do mundo. Tentei procurar no seu suave rosto um transtorno psíquico, uma distimia (essa palavra me soava meio dissonante, fazia-me lembrar disritmia) mas nada observei. Mostrava  nos cantos da boca um desejo, apenas um desejo, de sorrir.
"Olha, eu o conheço. Tomei esse livro emprestado de um amigo em comum...", emendou, "soube que ele é professor de uma faculdade no curso de psicologia".
Aquele dizer era-me ao mesmo tempo tranquilizador e apreensivo. Psicologia, psiquiatria, psicanálise... era uma sequência de palavras que me transbordava dúvidas e temores.
"Você não teria o telefone dele para..." contei-lhe sobre a dedicatória.
"não costumo receber ou dar telefonemas... tenho uma pessoa, um namorado que  não ia gosta que eu troque telefonemas...”, tomou, enquanto explicava, o meu volume em suas mãos e “é, realmente está ilegível!”
Fez vários comentários, mas havia me distraído na sua reposta inicial. Confesso que o argumento do telefone havia me surpreendido e me dispersado - Afinal, de que tempo essa moça é?, pensei. Imaginei ela não mais uma estudante  com "O Livro Submerso", mas uma carola, quem sabe evangélica com o o livro sagrado. Na verdade, pensei coisas muito diversas. Como seu rosto não tinha nada de bíblico, imaginei uma escrava oriental, uma gueixa,  que se submetia aos caprichos do outro - do marido ou namorado - Essa palavra escrava... Pensei calculando alguma insolência no seus olhos, inclusive, não tão longe, mas já no Ocidente, no Marquês de Sade  – o seu olhar era polifônico.
"Tem um conto ótimo: leia esse!"... apontou-me o Espantalho.
Para minha surpresa, aquela mulher havia me indicado o único conto que tive oportunidade de iniciar... Olhei o seu semblante mais uma vez e vi nela o rosto moreno, de cabelos e sobrancelhas negras, da personagem Bárbara – não vou dizer mais nada sobre o conto em respeito vocês que não leram, nem sei se lerão.
"Por que você não procura o autor na faculdade ou no e-mail?", mostra-me o e-mail próximo da ficha catalográfica.
"Prefiro falar pessoalmente. Como chegar até ele? Posso falar do seu nome?"
Pode sim! Diga que esteve com Luana.
“Mas que Luana? só Luana?”
"Basta dizer Luana amiga de César..., um amigo meu", mostrou-me o nome de César escrito na dedicatória do volume que carregava.
"à César, por acompanhar esse percurso, um abraço, Marcos"
Ora, como era claro a dedicatória ao amigo de Luana! As letras formavam palavras que formavam sentido.  Luana que não entendia meu desapontamento.
Tomei outro ônibus... Desci. Uma faculdade.
                                                                      *   *   *
"Olha, sinceramente não fui eu quem escrevi isso... Essa letra, inclusive, não é minha ” - disse Marcos comparando a caligrafia com alguns papéis seus. Falou que não conhecia meu amigo, apenas de nome. Falei, então, sobre a distimia e ele soltou um sorriso.
" Luana? Não, não conheço”, e irônico, “Cesar só o romano!”
Marcos toma o livro de minha mão, tenta decifrar a dedicatória e me diz:
“isso aqui não é ‘distinto!’, nem ‘distimia’... é ‘distante!’. A palavra é distante”.
No meio da rua vejo um ônibus passar, olho para o seu interior e procuro Luana. Tenho a lembrança cintilante de uma mulher de olhos negros que trazia uma ou mais Bárbaras dentro de si.
Damaso de Barros (por Marcos Creder)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


vazio
Maicon José de Jesus Vijarva
 ( Psicologia, UNILAGO)

A primeira aparição da solidão do ser humano ocorre ao nascer, quando lhe cortam o cordão umbilical, o ser humano, gregário por definição, inicia uma nova fase de sua vida, porém, fisicamente sozinho, e assim acompanha sua jornada até a morte, - cujo silêncio absoluto quem sabe caracterize o maior período de solidão.
Há alguns anos, as relações humanas vêm sofrendo mudanças significativas, nas quais algumas delas estão submersas ao significado da vida, e tudo que conspira para sua existência.  É intrigante, mas é possível ouvir o tom trêmulo nas vozes humanas, e sentir que por algum pretexto a humanidade está perdendo o desejo pela vida, e facilmente consentindo com a decadência do mundo externo e, por conseguinte deixando o significado da vida escapar.
A tecnologia, por sua vez foi conquistando seu espaço, modificando as relações comportamentais e afetivas. Revolucionou o conceito de liberdade de expressão, tanto se faz verdade que, hoje não é impossível pensar, ou viver o universo sem tecnologia, sem satélites. Teleconferências, Mensagens de celular, e-mails, e-books e sites de relacionamentos, como as famosas “redes sociais”, oferecendo uma interação em tempo real, criando uma Era de “laços de afetividade virtual”, tornando-se ferramentas indispensáveis na rotina da maior parte da população mundial. Todo avanço da tecnologia trouxe benefícios, hoje é possível conversar com familiares, amigos e contatos profissionais de toda parte do mundo, detalhe, em tempo real.
A inclusão digital alcançou todos os lugares, até mesmo as tribos indígenas. No entanto, não podemos deixar de notar que a tecnologia avançou muito então pouco tempo, e que toda essa frenética realidade nos dá a sensação de nunca estarmos sozinhos, no âmbito da solidão. Entretanto, esta é uma percepção fantasmagórica. Séria um estereótipo, caso mencionasse a tecnologia como grande percussora do individualismo, ela não foi à percussora, porém, facilitadora.
Nos detalhes do cotidiano, em um movimento sútil colateral, encontramos pessoas cada vez mais solitárias, depressivas e isoladas. Incrível? Não, porque vivemos nesta realidade, mas não queremos enxergá-la com medo da dor, que de uma forma ou de outra acabamos sentindo. O vazio da solidão tem tomado um rumo assustador, tornando-se uma das maiores queixas do mundo moderno. Hoje em dia, é comum ouvirmos as pessoas queixarem-se do vazio, da solidão, mesmo estando rodeadas de uma multidão de pessoas.  
Contudo, estar consigo mesmo de vez em quanto, ou seja, o vazio, a solidão, é importante e até mesmo necessário na vida do ser humano, para que ele possa conhecer a si mesmo, pensar e refletir sobre seus atos, sonhos e no significado da sua vida.
O que se constata é que as pessoas não querem parar para tranquilizar a alma – descansar –, não querem designar um tempo exclusivo para refletir, pensar sobre seus medos, solidão ou vazio. Pensar-se a si mesmo. É comum olhar na modernidade e ver que, os humanos habituaram-se a viver em constante movimento, inventando sucessivas atividades, unicamente para não terem tempo para pensar, refletir sobre elas e o que está em sua volta; e, assim, não correr o risco de ter que lidar com os problemas.
É notório que temos medo de olha para dentro de nós, e observar que nos acomodamos, criamos ninhos e não desejamos mais sair da zona de conforto, sabemos bem que devemos crescer e amadurecer. Mas sair da zona de conforto sem se machucar, é muito difícil, impossível, tudo isso nos mantém amarrados, acorrentados no passado, nas lembranças, nas pessoas e no pessimismo.
Como sair da zona de conforto? É difícil, não podemos simplesmente criticar esse ato, talvez esse seja o pilar que sustenta o edifício inteiro de alguns humanos, só conseguimos sair dessa zona, quando encontrarmos segurança em nós mesmos e, desta forma enfrentar nossos medos e conquistar nosso espaço na sociedade, não como um ser humano respeitado, mas como um herói que conseguiu compreender que a vida acontece dentro e fora de nós, por isso é preciso compreender nossos sentimentos e sermos humildes com nós mesmos, com nossos sonhos e com o próximo.
Em nosso dia a dia, frequentemente vamos nos envolver com os sentimentos de vazio, de solidão, e precisamos estar preparados, caso contrário o vazio pode se tornar um inimigo e posteriormente ser um sentimento insuportável na jornada da vida. Portanto, olhe com amor para si mesmo, analise cada traço, mudança e lute para ser uma pessoa melhor para si mesmo, só assim poderemos transformar o mundo, buscando aceitar, amadurecer e transcender os conflitos que existem dentro de nós.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

LITERALPÉDIA


             Estamos criando este novo espaço aperiódico (sem a obrigação de ser todas às semanas), às terças-feiras, para o que a partir de agora denominamos de LITERALPÉDIA, com o objetivo de criarmos uma minienciclopédia lúdica sobre termos e assuntos vários, engraçados, curiosos, interessantes e (in)úteis. Aceitam-se, pois, sugestões, afinal o LITERALPÉDIA está sendo criado para contribuir com todos nós que por aqui transitam neste blog.
                Tratando-se de um blog coordenado por “coroas” (Joaquim e Marcos), cuja própria paginação já inspira saudosismos e nostalgias, inauguraremos a coluna em uma espécie de túnel do tempo, isto é, buscando no passado coisas mortas ou não tão mortas assim. Sendo o LiteralMente um ambiente de literatura, arte e psiquismo, recuperamos algumas gírias que já foram moda no vocabulário da juventude dos pais e avós da maioria dos frequentadores do blog.
                A gíria é um fenômeno de linguagem popular usada por certos grupos sociais e marcam e denotam uma época histórica. A gíria tem como característica a utilização de termos não convencionais para designar outras palavras, digamos, mais convencionais.  Como registro informal a gíria torna-se uma linguagem de entendidos na mesma, excluindo aqueles que não conhecem seus jargões.
                Pois é, a gíria, como tudo humano, tem sua história e seu tempo. Muitos termos antes usados caem em desuso e se transformam em curiosidades de uma era, ou constituem uma espécie de museu linguístico. Vamos, portanto, retornar no tempo e ver como nossos antigos antepassados ou os hoje velhos e coroas falavam seus “tá ligado”, “na boa”, “pisantes”, “popozudas”, “tchutchuca” e “trigões” de então.

Brasa mora = coisa boa, legal.
Bicho = amigo, parceiro.
Bode = confusão
Tô ki tô = tô bem.
Tutu = grana, dinheiro.
Broto = mulher jovem e bonita.
Grilado = preocupado.
Patativa = absolutamente nada.
Patota = galera, turma.
Pindaíba = liso, sem dinheiro.
Xuxu beleza = tudo legal.
Amigo da Onça = traíra, traidor.
Mundaréu = coisa grande e imensa.
Pão = homem gostoso e bonito.
Supimpa = bacana, coisa legal.
Serelepe = cara agitado, safado e mala.
Chorumelas = frescura.
Batata = fácil.
Firme da paçoca = Oi.
Lero-Lero = conversa fiada.
Uva = mulher gostosa.
Bocomoco = cafona, brega.
Balangandã = penduricalhos, bijuterias.
Fuzarca = bafafá, confusão.
Paca = muito.
Gamar = apaixonar-se
Borogodó = charme.
Mocotó = coxa de mulher gostosa.
Do Barulho = perigoso.
Balacobaco = acima da média, excelente, ótimo.
Chuchu Beleza = bacana.
Lero = ideia.
Na Crista da Onda = estar bem com a vida, cheio de dinheiro.

              Pois é, gente. Tu sabe a idade do cara quando ele entende o treco. Façamos, pois, o teste da idade. Leia o seguinte. Se entendeu de cara, então num é cara, é coroa: 
Pois é meu chapa, se o papo aqui num foi furado, mas papo firme, então tu num é quadrado, és pra frente, pois foi pra nós o maior barato ir lá no arco da velha pra pintar cuns bregueços bem jóia e chocante. Podes crer, a gente curtiu à beça. É um shock legal. Capitou?  Então já é... morou?”.


PRÓXIMA TERÇA: A História do Palavrão

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

CESTA DE VERSO & PROSA




Teus quereres.










O que queres de mim? 
O que procuras em mim?
Sinto te dizer que não sou única.
Não sou uma.
Em mim há várias.
Em mim habita o mundo.
Sou tanto.
E é tanto que não me cabe.
Transbordo em fragmentos de um todo.
Todo é o que me compõe. 
Sou vazio também.
Existe muito em mim que não sei.
E em ti descubro muito de mim.
Não posso te dar apenas teus quereres,
pois sou inteira. 
Sou a vida
e a vida é incerteza, é multiplicidade.
Tenho riso
Mas há lágrimas nos cantos dos olhos.
Tenho paz
Porém as vezes faço guerra.
Eu abraço e deixo cair.
Beijo e também viro o rosto.
Não sou fácil.
E nem tão difícil assim.
Veja, estou sendo o que posso.
            
                         Andreza Silva


CESTA DE VERSO & PROSA


Estorinha

                             Era uma vez uma menina...
Durante a infância, foi ensinada a trilhar um caminho que dava numa rua onde faria sua morada e ali seria feliz! Relatos maravilhosos sobre aquele lugar a encantava, quem ali chegava era tão feliz que não retornava. Ela caminha, tropeça, cai feio às vezes, mas não desiste de sua felicidade e segue.
O faz- de -conta se vai com a infância, chega a adolescência...
Moça persistente e sonhadora continua a seguir seu caminho rumo à rua onde terá sua morada. Durante a caminhada conhece diferentes pessoas, moradoras de outras ruas... Parecem até felizes... Mas ela segue seu caminho.
A idade adulta se aproxima, e da mesma forma, o final de sua jornada: serei feliz! Pensa a exausta jovem.
O tempo passa... E a metros da sua rua o sonho se vai... Adulta, a agora mulher segue cansada em companhia da realidade. Mais alguns passos e se depara com pessoas retornando de onde teria enfim, o fim feliz de sua jornada: parecem desiludidas, sofridas... E tristes! Ela para e pensa rapidamente em desistir ali mesmo, sem sequer conhecer o endereço onde seria enfim feliz. Pensa em tudo que passou em sua caminhada e um vazio a toma.
Começa então a armar uma barraca um estranho de boa aparência se aproxima, a vê naquela situação e a ajuda, a conforta... E com ele fica ali... Naquela situação: insegura e indecisa... Se retorna... Se continua ou não sua caminhada a cada dia seguinte... Ali, tão perto e tão longe de seu sonho!
 Beirando os quarenta, envelhece lá ainda hoje, sofrendo quem sabe até mais do que os que daquela rua voltaram... na sua indecisão. Fez da barraca no caminho sua morada e do estranho medo do desconhecido seu marido.
 
Será o fim?

 Edjelma Arantes dos Santos, na madrugada de 18/04/2012.
(psicóloga clínica, e-mail:jelalternativa@hotmail.com)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


POÉTICA,
OU SIMPLESMENTE: VIDA
Jorge Armando

            O que está dentro de um cavalo de papelão? Alma? Mistérios? Lembranças? Vácuo e vazio? Sentimentos? Histórias? Solidão? Devaneios? É tarefa da poesia e do poeta desvendar. O que está por detrás das coisas que os olhares mais ingênuos e apressados não vêm o poeta vê. Aliás, o poeta sente. Sente o sentir dos objetos inanimados, do passado no presente, o amanhã do ontem, o sossegar da tormenta, o recordar do já esquecido e o adormecido que nunca dorme. O inexpremível se exprime na poesia. Um poeta é, pois, um visionário, um profeta e um curandeiro que ressucita mortos. Ele dialoga com fantasmas e sombras, e é acima de tudo alguém que se retirou do instante e se isolou do empirico para solitário compartilhar desertos onde há vida e vida onde há desertos. Decididamente um poeta é um estranho.
            Não existem regras para se fazer poesia, já dizia Maiakóvsky: "poeta é o homem que cria as regras poéticas". Então, de que argamassa e matéria é feito um poeta? Como se faz o seu idear? A alma de um poeta é a alma de um homem comum que deixou de ser comum ao enchegar o incomum das coisas comuns. Um poeta é feito de infância e sonhos, como se perambulasse sempre entre o que já foi e o que nunca será. Simplesmente ele é um contador de afetos e quimeras.
            A poesia está onde o poeta está, afinal em tudo há poesia. Um poema, por exemplo, não se cria, se descobre. Ele está ali hibernando no óculos deixado sobre a poltrona, na folha caída na rua, na mulher que passeia com seu cachorro, no atravessar de uma ponte, no tear de uma aranha, no entardecer de uma dia chuvoso, na lágrima de uma criança triste, no sorrir sem dentes de um velho, na brisa quente do verão, numa folha de papel não usada, na luz acessa de uma janela distante, na roupa pendurada no varal, no silêncio dos elevadores, nos porta-retratos, nas nuvens, nos horizontes... em qualquer lugar, objeto, pessoa ou situação. A poesia habita por debaixo das mesas, nos bares, farmácias, esquinas, nas ruas, nas casas fechadas ou abertas, nas igrejas, nas matas, nas multidões e nos liugares ermos. A poesia está onde a vida a descobre. Sim, um poeta é um voyeur que pelo brechar das frestas busca desnudar a poeira das aparências e do corriqueiro.
            Fernando Pessoa definiu o poeta como um fingidor ("finge tão completamente/que chega a sentir que é dor/a dor que deveras sente"), já Ortega Y Gasset afirmava que o poeta é alguém que diz algo que ninguém ainda disse, mas que também não é nenhuma novidade. E, talvez, quem melhor sintetizou o assunto tenha sido Victor Hugo quando clarividente exclamou: "Um poeta é um mundo encerrado num homem".
            Como psicológo clínico também encontro poesia e faço poemas entre as quatro paredes de um consultório. Nas narrativas de nossos clientes e nas entrelinhas de seus discursos acham-se inumeras metáforas, imagens e versos, afinal o ser humano é por si mesmo uma enorme e inesgotável alegoria. Em latim verso significa "voltado, virado". Versar, portanto, é virar ao contrário. Em uma certa intervenção terapêutica revelei a mim um verso quando expressei à pessoa do meu cliente que ele precisava "sair para dentro". Ou em outro momento quando interpretei que "a infância ficou pequena demais para ele". Uma verdadeira prosa poética se constrói no encontro, no diálogo e no embate entre o discurso do cliente e o dircurso do terapeuta. E assim surge um terceiro discurso, uma nova narrativa. Inquestionavelmente um psicoterapeuta é um poeta.
            Um dos mais importantes e significativo poeta alemão, Rainer Maria Rilke, em seu cultuado "Cartas a um jovem poeta", ensinava com simplicidade a um jovem indeciso poeta que "se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas". Um poeta, diz Rilke, nunca se deixa enganar pela superfície. E seguindo o que também diz o poeta inglês William Blake, "se pudéssemos limpar as portas da percepção, tudo se revelaria ao homem tal qual é: infinito".
            Que venham, pois, os próximos poetas. É deles o meu amanhã. O homem, o ser humano, é permanentemente um espanto que se surpreende e se encanta com o canto que há em cada canto do seu habitar. É como se fosse uma espécie de alienígena curioso que olha o corriqueiro e o redor com olhares de estrangeiro. E com ele o plural transforma-se singular, e o ordinário vira extraordinário. Celebremos, então, a vida com tudo que nela há e em tudo que ela é. Suas glórias, triunfos e quedas; com suas alegrias e tristezas; com suas delícias e dores; com seus aromas e fedores; com seus silêncios e barulhos; com suas perdas e ganhos, com todos seus entulhos...
            E como a vida continua, a poesia continua. deixo com quem aqui agora está estes versos do poeta português Fernando Namora, cujo título é Coisas, Pequenas Coisas:
"Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade".

Jorge Armando

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CESTA DE VERSO & PROSA

O SORRISO

De todos os sorrisos o meu é o que mais me surpreende
porque ele é vago, débil e fútil
um adorno que pendurei na ilusão do que penso que sou
a mentira que adorna a janela do meu ser
é minha arma, minha fuga e minha defesa
O preço pelo qual me vendo, me penhoro
sem nem saber de mim, o que virá depois?
é o que preenche uma lacuna que dói
quando sinto que não existo
e que não me valho à existência
a minha vida toda me deixei acreditar no que me diziam
não sou digno, não sou bom, não o posso
logo, não mereço qualquer regalia
assim, aprendi a me sentir notado apenas no precipício
me estrangulava para estrangular o outro e para ser salvo de minha inércia
assim, aprendi a jogar o jogo que fingem não jogar
jogando o jogo de não jogar percebi que em verdade, jogava
jogar é não saber e jogar, já jogando, enquanto se pensa que não se joga
e no jogo de pensar que não jogava já jogando me perdi de mim
e na selva do possível hesitei, cristalizei, eternizei e arruinei, a mim
quando se navega um navio há sempre um destino, risco fácil quase risório
navegar é preciso, mas é, ainda assim, uma escolha
quando navega-se a si mesmo não há destino, cria-se, sem instruções
preferi então o chão de mim, firme e vulnerável, sem saber que há diferenças
ao escolher o chão de mim, escolhi em verdade navegar parado
navegar a si mesmo não é escolha é condição

André Guimarães (Psicologia/FAFIRE)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

  

QUAL A IDADE DA INTELIGÊNCIA?
Uma conversa com Jorge e com Lucas



Guilherme Saraiva (escritor, filósofo)

Venho acompanhando com regularidade as postagens do literalMENTE, e confesso que cada vez mais venho me animando com os textos. Além de bem escritos, gosto da diversidade, do despojamento, da simplicidade e da honestidade em que os temas são, por assim dizer, defendidos. Na verdade, gosto da honestidade em todos os aspectos. Uma vez assistindo ao filme “A Idade da Terra” de Glauber Rocha – um filme, diga-se de passagem, insuportável – ouvi um grito: “tira essa merda”. Éramos poucos no cinema e o rapaz foi surpreendentemente ovacionado por nós, gatos pingados. A chatice tem a vantagem de arregimentar pessoas tímidas e educadas – essa também minoria de gatos pingados – e esse fenômeno de franqueza é exceção à etiqueta dos chatos. Enfim, a chatice culta é avessa a honestidade e é por isso que venho gostando imensamente desse blog.

Pois então, antes que proíbam os meus comentários críticos à Axé Music, aos forrós e pagodes estilizados e, por fim, aos sites de relacionamentos – por preconceito étnico-regional ou por postura antidemocrática contra a liberdade de expressão – falarei, assim como o colaborador Jorge Armando, mais algumas palavras desagradáveis sobre a formação de vida das pessoas de hoje e, como disse Lucas, da de(formação) – adoro trocadilhos – das pessoas de ontem. Na verdade, a única ressalva que faço a Jorge, é que sendo a ignorância uma coisa meio que da índole humana, ela é atemporal – e acrescento pandêmica. Quanto a Lucas, teço um minúsculo comentário em torno de uma palavra. Explico já. Para aqueles que estão se sentindo perdidos no meio desse texto recomendo que leiam os artigos de cada um postados recentemente no LiteralMENTE.
Façamos de conta que estamos num Café – saiamos, portanto, do ambiente universitário ou virtual . Nesse Café há uma mesa de jovens homens e mulheres a cerca de uns vinte metros. Que tal fazermos silêncio e tentamos escutar o que dizem? Nada? Não escutam? Realmente, não dá para ouvir... Como somos todos curiosos e criativos, tentamos construir personagens que, somando com as nossas próprias experiências, ganham vida própria na nossa imaginação. Não seria imprudente, embora não tenhamos nenhum subsídio para isso, elegermos aquela mulher mais à esquerda, de óculos, como a mais interessante e o homem magro que está ao seu lado, de barba rala, como o mais perspicaz do grupo. Porque os escolhi assim? Por pura aparência e intuição, ou, como Jorge disse, em algum momento do seu texto, por ignorância. Confesso que sou um esteta e elegi a mulher por ela me parecer bonita e agradável e o homem por parecer simples e inteligente. Porque fiz isso? Porque sou tão feio quanto ele e me suponho inteligente, e essa seria a minha única característica ou recurso que tenho em mãos para conquistar aquela bela mulher. Talvez vocês questionem, chamando-me de preconceituoso porque não a chamei de inteligente. Respondo: quando contemplo o belo, nele, particularmente, incluo a inteligência. Esse modo de pensar, que aglutina o belo e o sábio, foi comum a muitos homens e mulheres da geração de Jorge, da minha geração, da geração dos autores desse Blog – vejam só! esquecemos de chamá-los para esse encontro nesse Café! – em suma, das gerações que tem hoje acima de quarenta e poucos anos de idade. Antes que você me corrija, Lucas, aceito seu possível comentário a meu respeito – pretensioso, presunçoso, pedante! -, afinal, você e muitos de seus amigos também admiram as pessoas inteligentes. Você tem razão! Mas você há de convir que na história da humanidade existe o fenômeno da moda e, ser inteligente, nos anos 1960 e 1960 fazia parte da moda, mesmo que muitos não fossem tão sensatos como se imaginou. Mulheres como aquela ali e rapazes franzinos, exibiam-se com livro de escritores existencialistas, com livros de filosofia e nas filas dos cinemas de Arte. Livros de autores como Marcuse que Jorge citou, eram, por assim dizer, uma moda como são hoje os smartphones. O que posso afirmar, amigos, é que não há dúvidas, estamos fora de moda.
Andei folheando umas revistas velhas e vi que, por exemplo, nos anos 1960, a lista dos Best Sellers da revista Veja, eram livros que hoje são considerados difíceis ou, como diriam, “cabeça” demais. “Todos os Homens são Mortais” de Simone de Beauvoir, “O Estrangeiro” de Camus a “Idade da Razão” de Sartre são alguns exemplos que encabeçam as listas dos mais vendidos naqueles anos. Mas será que o mundo naquela época era tão mais inteligente assim? Bem, para quem hoje pensa que Beethoven é o nome de um cachorro, ou que Sócrates foi um jogador de futebol inteligente, ou ainda, que Molière é um erro de digitação da palavra “mulher” – como tentou me corrigir uma famosa livraria (repito livraria) virtual – Ler Camus seria o mesmo que ler a Odisséia em grego arcaico. Você tem razão, Jorge, estamos num buraco desgraçado e aproveitando esse nosso encontro com Lucas, contarei aos dois sobre um acontecido, um outro, mas lamentável encontro. Corrijo-me, um reencontro.

Detesto reencontros, reuniões de pessoas que não se vê há zilhões de anos e que as únicas frases ditas geralmente são amenidades vagas que se esgotam em poucos minutos. Indaga-se, de início, um mini-curriculum profissional-vivencial-estético – “Você está fazendo o quê? Você tá bem? Você não mudou nada!” – e, termina-se discutindo a meteorologia ou o trânsito da cidade. Inevitavelmente fui, por assim dizer, “convocado” para uma confraternização desse tipo em razão de um aniversário de uma pessoa amiga. Lá chegando reencontrei – este prefixo “re”, por sinal, iria se repetir várias vezes naquela noite nas palavras resgate, retorno, rememorar, reduzir, rever, repensar – enfim, reencontrei várias pessoas que não via há tempos. Uma delas, uma mulher, chamou-me atenção. Sônia como a chamarei, era uma grande amiga dos tempos de faculdade da área de ciências humanas, fazia sociologia e naqueles remotos tempos, lia Lévi-Strauss (antes desse nome se tornar uma marca de roupa), tossia Manuel Bandeira, arrotava a ética Spinoziana, enfim, tinha todos os predicados – palavra démodé – de uma bela e, como estava na moda, inteligente mulher dos anos 60. Com cabelos negros encaracolados (não havia necessidade de chapinhas), seus pés calçavam chinelos baixos, de couro cru, dando impressão de que caminhava descalça pelos lugares – uma mulher andar descalças naqueles anos era um ato muito sensual. Sônia citava trecho de Rimbaud em francês, gostava de Clarice Lispector, assistia aos filmes de Fellini, Ettore Scola, Pasolini (um diretor pornô permitido), Bergman. Fui a sua formatura cujo “baile” aconteceu, imaginem!, num botequim no centro da cidade, nos arredores do “beco da fome” – ah! Como essas recordações são nítidas e agradáveis quando conto a vocês ... Enfim, passadas algumas décadas, Sônia estava lá, naquela festa, na minha frente. Nossas faces, nossos corpos mudaram, nossas belezas eram resíduos daquela juventude de trinta ou mais anos – há algo escrupuloso no processo de envelhecer. Lembro-me que numa conversa universitária, ainda com desprendimento de adolescente ouvi de alguns amigos que o bom da inteligência é que ela era uma espécie de consolo para as transformações do corpo – naqueles anos, pensávamos o corpo e a alma, Lucas, como dois países à beira de uma guerra. Seguindo, contudo, esse ingênuo raciocínio, eu iria reencontrar no semblante de Sônia, já uma senhora, toda uma explosão de sabedoria. Puro engano. Percebi que aquela amiga tão culta e tão lida (antes linda) tinha se transformado na sua inteireza do vinho para a água. A sua inteligência havia se alisado como os seus cabelos e sua futilidade, assim como sua silhueta, tinha ganhado uns quilinhos a mais. Tornara-se uma pessoa rude, rústica. Na primeira conversa ela ensacolou a sociologia, a literatura, Levi-Strauss, o cinema italiano, Rimbaud, Camus etti alli, e todos os ismos daqueles tempos. Nessa sacola tinha uma doença, uma doença grave da qual chamou de juventude. A juventude era-lhe algo como uma doença mental, como num delírio de grandeza. Como pude ver ela estava bem curada dessa doença – disso não se podia contestar. Vocês devem estar se perguntando: e, uma vez curada, qual seria a sua verdadeira saúde? Ela foi taxativa, seu pragmatismo era ofensivo. Hoje Sônia é funcionária pública frustrada, mas bem remunerada, perto de se aposentar. Sua grande aspiração de vida era entreter-se em saber das biografias de personalidades que julga relevantes: Leonardo, Maximiliano, Milton, Newton... Engana-se, Lucas, se você pensou que ela havia se interessado pelas vidas do pintor italiano, do imperador germânico, do escritor ou do físico inglês. A vida de minha ex-bonita amiga resumia-se em assistir ao BBB – esses eram os nomes de seus integrantes na ocasião. Por algum momento, pensei que ali estava outra mulher de nome homônimo, que não era, não podia ser a Sônia que imaginei. Mas as coisas pioravam a todo momento. Falava-se em programas de auditório, viagens a Miami, e de revistas de fofocas televisivas. Enfim...
Se você, Lucas, acha normal realities shows ou tudo que falei, penso que farás ressalvas se disserem que são atividades frutos de hábitos de inteligência. Há alguns que se justificam, assistem a esses programas para “ter um entendimento, um estudo, da alma humana” – eu, particularmente, preferia quando esse cinismo era utilizado para se assistir os filmes de Pasolini...
Vejam como são os nosso estudiosos alunos e pesquisadores!

Por falar nisso, Lucas, permitam-me fazer dois comentários – os únicos comentários críticos ao seu texto. Quando você questionou a palavra aluno você foi à etimologia que vem sendo difundida no meio acadêmico. Algo que se aproxima da ideia de “Sem luz”. Posso dar uma opinião? esqueça essas filigranas, essas discussões não levam a nada e fazem parte do discurso do politicamente correto – veja o artigo de Paulina Souza da semana passada - de alguns setores acadêmicos. se eu fosse me restringir em usar de maneira correta algumas palavras com suas devidas relações etimológicas, algumas denominações soariam estranhas... Se aluno é “sem luz” e eu resolva fazê-lo, por exemplo, com luz “portador de luz” (lucem ferrem) e de “genialidade” (daimon), eu teria duas novas formas de denominá-lo: lúcifer e demônio. Veja só! São essas as etimologias. Há quem diga que a palavra aluno nada tem a ver com “sem luz”, mas com “menino” ou “discípulo” (alumnus) – pesquise mais, se tiver interesse. Eu sinceramente não tenho interesse algum.

O que quero dizer com tudo isso – e agora falo para vocês dois, Jorge e Lucas. A primeira reflexão é de que não há momentos que determinados seguimentos foram mais inteligentes que outros. O que há, são interesses inteligentes e imbecis – restrinjo-me em utilizar apenas a palavra “interesse” – alternado-se em diversos momentos da história. Se vocês me perguntarem o que movimenta esse pêndulo... não tenho a menor ideia – quer dizer, tenho, mas isso merecia outro artigo. 


 Começo a enxergar um pequeno grupo de jovens que estão se cansando da moda da ignorância.

Enfim, Sônia foi um sonho – mas convenhamos (não é Jorge?) foi um sonho bom...